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, diz o sujeito que acha normal e completamente lícito se aproveitar dos instintos gregários de um cachorro para mantê-lo no quintal arriscando a vida como cão de guarda. Ou diz a madama que nunca deu uma só hora de expediente na vida e tem um Lasha Apso que recebe mais atenção que suas próprias filhas, incluindo bolo com velas e festa no dia do seu aniversário.

Esse mesmo casal hipotético (mentira, ambos existem) não enxerga qualquer abominação no ato de levar seu animal para ser cruzado com outro, completamente desconhecido, de onde sairão filhotes que virarão rapidamente mercadoria (mais sobre isso adiante).

Creio que essas mesmas pessoas que dizem que a gayzada não pode se casar são as mesmas que estão se revoltando contra os direitos das empregadas domésticas (às quais se referem apenas por “domésticas”, para não deixarem cair no esquecimento os “bons tempos de antigamente” em que escravos se dividiam entre os de lida e os domésticos). Ou seja, essas pessoas ainda acreditam na noção bíblica (uns quatro ou cinco mil anos defasada, modernizada apenas pela influência europeia bimilenar por conveniência cromática) de que as pessoas podem ser divididas em níveis, ou subclasses; brancos ricos > brancos pobres > animais domésticos > animais de produção > pretos e pobres em geral > animais selvagens > abominações perante deus.

Essas mesmas pessoas respeitam a dignidade de animais da carne vermelha (em homenagem à lenda do Hércules hebraico) enquanto, ops!, esquecem de respeitar o dia de descanso da empregada já que “esse bacalhau não vai se dessalgar sozinho e você faz bem melhor que eu e não precisa ficar até tarde, pode sair assim que servir o almoço e tirar a mesa, não precisa vir amanhã mais cedo, pode lavar os pratos antes de sair”. O potencial de enganar a si mesmo com desculpas esfarrapadas é quase tão ilimitado quanto a hipocrisia humana. “Afinal, ela só trabalha aqui por que gosta, se não gostar pede demissão, tem uma fila de gente querendo trabalhar de doméstica e ainda estou provendo para a minha família” – que só se reúne nos almoços de domingo porque ninguém se aguenta com uma frequência maior que essa. E se o restaurante aceitar cachorros, ele vai junto.

Eu até me perguntava “o que diabo essas pessoas têm para se importarem tanto se um cara quiser realmente casar com seu cachorro” até lembrar que já ouvi de uma sujeita que os animais são inocentes (“menos gatos; gatos são dissimulados” e altamente antropomorfizados) e precisam ser protegidos. Para uma pessoa assim, o bem estar dos animais (que não são Os Animais, mas especificamente o seu cachorro) está tão acima dos direitos de um colega de humanidade que ela cria uma ponte lógica que vai de [casamento gay] até [casamento zoofílico], passando apenas por uma etapa, aquela onde os animais criam consciência momentânea apenas para serem contra seu próprio casamento com um humano, possivelmente gay.

Lembram do casal lá no começo do texto que levou seu cachorro para cruzar para que eles e os donos da cadela pudessem vender os filhotes? Se os animais são tão inocentes e precisam tanto de proteção e não entendem o que está acontecendo e não podem casar com gays, por que então, ó demônios que assombram o caráter dos cristãos, eles podem ser forçados a fazer sexo com um outro animal que nunca viram na vida e podem ser vendidos a qualquer um com dinheiro suficiente logo após tomarem a primeira vacina (e terem orelhas e rabos decepados, outro comportamento completamente adequado na cabeça mal formada desses retardados evolutivos com seus cérebros e capacidade cognitiva de lagartos)? Hein? Alguém tem uma resposta?

Ou a resposta é “animais só devem ser defendidos em situações que envolvem indivíduos dos degraus mais baixos da escala de importância – onde aqueles dos quais tenho medo são os mais rebaixados”?

Eu tenho das certezas a mais absoluta que aquele mesmo casal tradicional, em algum momento (talvez numa época de vacas magras, quando a madama achou que deveria pular do barco antes deste afundar ou quando o sujeito conheceu uma dona na Internet e viu crisedemeiaidademente um futuro melhor e mais sexualmente ativo com ela) já chegou ao limite do matrimônio e, enquanto considerava se valeria mais a pena vender o carro agora ou dividir o valor depois, jamais algum achou ruim a existência do divórcio. Que, junto com morte, é a principal ameaça à sagrada instituição do casamento que tanto querem proteger – desde que seja o dos outros.

Porque só um muito profundo desejo freudiano de controlar os outros explicaria esse tipo de atitude, já que existe tanta gente que se sente agredida quando me vê na rua andando descalço, como se o fato de eu ter uma postura altiva ao mesmo tempo em que tenho pés de agricultor fosse uma ofensa pessoal àquele indivíduo que, obviamente, é o centro de todo o universo e pode, não, DEVE!, ter poder de controlar a tudo e a todos.

Desde que seu poder não possa ser aplicado nele mesmo e nunca interfira nos seu desejo de castrar, mutilar e estuprar por procuração animais, nem no seu direito sagrado de não pagar hora extra para a empregada porque ela precisa trabalhar no dia que é sagrado e de descanso para você e para mais ninguém que se intrometa na sua comodidade.

A única “feliz páscoa” aceitável por aqui.

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Em 1994 eu fui à Disneylândia. Ainda era novo demais para aproveitar tudo que poderia ter aproveitado (apesar de ser o único não-guia que sabia se comunicar com os nativos, em boa parte por causa das minhas muitas horas jogando The Fate of Atlantis e The Case of the Serrated Scalpel com um dicionário no colo). Não me arrependo mas deveria ter esperado mais dois anos para isso, porque ao invés de um boné de Jurassic Park e um boneco do Charlotte Hornets eu teria comprado CDs, tanto de música quanto de jogos para PC.

Eu desconfio que seja um sinesteta de média ordem, pois meus sentidos confundem fluxo temporal com propriocepção e eventos com aromas. 1995 para mim, portanto, acontece nas cabeças dos meus dedos e tem cheiro de capa de CD novo.
Em 1995 eu já tinha uma base muito sólida para a minha “formação” musical, desde de ouvir os LPs de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro que meu pai rodava todos os sábados de manhã e ouvir escondido os CDs (ainda analógicos até o processo de reprodução, acreditem ou não) de Iron Maiden e Led Zeppelin que minha irmã tinha (que desconfio tenham sido presentes, já que ela não é muito desse tipo de música).
Porém, em 1995 eu descobri que ela também tinha Mother’s Milk e Blood Sugar Sex Magik do Red Hot Chili Peppers e Ten, do Pearl Jam, todos lançados alguns anos antes.
Por causa da minha péssima memória autobiográfica, eu não sei dizer em qual momento exatamente meu mundo (que até então era sitiado por “esse é o forró Mastruz com Leitchiummm” de um lado, “eu só quéééro é ser feliiiz” e Robocop Gay do outro) virou do avesso, mas quando ouvi que existia distorção, baixo e bateria em músicas bem feitas, parafraseando uma famosa passagem, e viu Igor que era bom. Meu mundo estava, finalmente, virado do lado certo.

Em seguida, descobri que poderia comprar CDs e ouvir na tranquilidade privada do meu quarto (antes disso, precisava ouvir na privada intranquila do 3-em-1 que ficava no banheiro), pois eu acabara de receber de presente um DRIVE DE CD-ROM! Que, junto com uma placa de fax/modem, era tudo o que a rapaziada marota da época queria, crianças. Perguntem ao seu avô sobre como conversar apenas por texto era suficiente e como jogar Indy 500 direto dum disquete de 3 1/4″ era um salto tecnológico reservado apenas aos mais afortunados.

Abaixo, alguns álbuns (completos, viva o Youtube!) que revolucionaram meu pequeno cérebro em desenvolvimento, dois anos antes de eu possuir um instrumento musical de verdade:

Todos os acima foram por mim comprados embalados e estão permanentemente marcados na minha (peço antecipadamente desculpas pelo termo que usarei em seguida) “memória muscular”. Ainda lembro do brilho do OHM, da sensação que sentia ao ouvir IOHWIR e do cheiro do JLP. Lembro também que nessa época foi a primeira vez que entendi e passei a usar siglas no lugar de nomes completos de músicas/artistas.

Enquanto essa revolução acontecia no meu cerebelo e nas minhas terminações nervosas (e no meu desenvolvimento motor fino, pois eu achei duas baquetas lá em casa e ficava acompanhando Chad Smith nos travesseiros), o universo computacional passava de um disquete de Lemmings com “música” 8-bit sendo reproduzida no infame pc speaker a um semi-3D Descent num CD em computadores que, finalmente, aceitavam HDs e usavam todos os recursos do kit multimídia que vinha de brinde com o drive de CD-ROM e tocava música de verdade (com instrumentos) e usava vozes reais.
Os gabinetes, no entanto, ainda tinham um botão de turbo e uma chave para trancar o teclado. E mouses, finalmente, se tornaram úteis de verdade.

Fomos de Maniac Mansion a Day of the Tentacle…

… passando por Full Throttle (que é a capa do meu perfil no Twitter) e seu senso de desenho animado…

… ao estranhamente-similar-a-Wolfenstein-3D Descent (ainda um excelente jogo, ambos)…

… até chegarmos ao não-intencionalmente cômico pseudorrealismo de Cyberia.

E, o melhor, todos os jogos acima vinham de brinde no supracitado kit.

Apesar de eu nunca ter sofrido do problema mental daqueles que só conseguem ouvir música se estiverem entendendo a letra (eu tenho o problema oposto; geralmente eu não entendo o que está sendo cantado, seja em que língua for), preciso dizer que Os Raimundos foram muito bem vindos ao meu repertório colegial abastecido a excesso de testosterona (e abstenção a drogas de toda sorte – bebi pela primeira vez aos 25) que era contido momentaneamente por The Doors, Janis Joplin, Pixies e, novamente, Led Zeppelin.

Sério, por mais que seja uma questão fumófita, ramo querido da herbocinética, as letras d’Os Raimundos são divertidas até mesmo para um adolescente que não fuma maconha.
Iron Maiden não. Sempre achei ruim e ouvia no tempo em que não tinha outra opção. Minha irmã também tinha um CD com o melhor de Rush bolando, algo que só comecei a apreciar recentemente (ouvindo uma versão deles da versão do The Who para uma música rockabilly de Eddie Cochran, acreditem ou não).

Dez anos depois, já na Austrália, aprendi os méritos de músicas que parecem ser apenas dez minutos de introdução e outras que soam mais como álbuns completos do que como as faixas isoladas que são.
Mas isso fica para outro momento em que meu blog estiver parado há meses.

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Já que o novo papa é um argentino e Buenos Aires tem um bairro chamado Boca, usaram muito “quem tem boca vai à Roma”. Apesar do Vaticano não ser em Roma (que é uma cidade) mas sim um país soberano.

Se fosse brasileiro, o papa chico (que se traduz em português como “come menino”), as piadas seriam, inevitavelmente ao redor de “deus é brasileiro”. Talvez com alguma variação tipo “aí já é nepotismo” ou algo parecido.

Se fosse britânico, em algum momento o Twitter explodiria com ^piadas^ (aspas irônicas) envolvendo o hino nacional God Save the Queen. Talvez cleycianniamente fundindo as duas línguas, como “já que god tem que save a the queen, ele mandou o papa” ou algo semelhantemente ridículo. A mesma pseudopiada serviria para um papa sul-africano, mas quem faz e acha engraçado esse braço trocadilhiano geralmente não sabe que existe um negócio chamado “commonwealth”.

Se o papa fosse indiano (ou de qualquer raça semelhante), iriam sem dúvida alguma perguntar “ele é o papa de qual deus?” e cair numa risada potencialmente mortal.

Durante a votação [1] leu-se muito sobre a fumacinha branca e o candidato jamaicano.

Qualquer um do Oriente Médio deveria escolher para seu nome artístico Papa Jesus II.

Um australiano eleito seria saudado imediatamente com “vai para a igreja num canguru” ou por tuiteiros usando alguma frase de efeito de Crocodilo Dundee. Pessoalmente, eu preferiria usar alguma alusão a Priscila, A Rainha do Deserto em relação aos vestidos e opulência geral do ultrapadre.

No caso de um português no cargo, não faltariam piadas racistas contra portugueses que nada teriam a ver com a igreja ou o papado. Penso em algo como “sabe como o Papa Juaquim reza? De costas para o altar HAHAHAH” e tendo vestido a roupa do avesso. Tem também o lado raço-machista, que incluiria um “até mulher tem bigode, não tem como saber se é uma mulher de vestido HEHEHEHE”.

Apesar de já morar no Vaticano, se um italiano (Papa Luigi?) virasse papa, os jênios diriam, com bastante ênfase nas palavras-chave e com explicações e esclarecimentos, “deve ser bom que pega pouco TRÂNSITO pra ir trabalhar. PORQUE ELE JÁ MORA LÁ, SACOU? O Vaticano é NA ITÁLIA, e ele é ITALI” argh, não consigo nem ironicamente. Me dá uma coceira na úvula.

Se fosse mexicano, perguntariam “ele vai trocar o chapéu de papa por um sombrero?”
Aaah, estou passando ligeiramente mal. Mas preciso continuar, é para o bem da humanidade.

Uma única piada que talvez tivesse um Ångström de graça seria caso o papa fosse nórdico. Porque alguém poderia dizer “olha, finalmente um papa da mesma raça de Jesus” e ser conseqüentemente bloqueado por todos aqueles que acham que fazer piada com Jesus Galego é imperdoável.

Se fosse francês, iam dizer que ele ia rezar a missa e consagrar não uma hóstia, mas um croissant. E ia beber os melhores vinhos.

Ou vodca, se fosse russo. Além de mandar instalar uma câmera de bordo no papamóvel.
Sério, tentar pensar em coisas desse nível encolhe meus testículos por causa da angústia de pensar que realmente existe gente assim com mais de 17 anos. Vou parar.

Mas bem que o papa poderia ser etíope ortodoxo. Porque aí ninguém teria uma piada adequada e, de repente, o Vaticano se tornaria uma ameaça política.
Fora que a Arca da Aliança seria finalmente revelada, derretendo todos os nazistas ao redor (obscuro demais para você?).

E outra coisinha: “papa” não é um acrônimo para “Pedro apóstolo, pai dos apóstolos”. Isso é retardado e quem acha que esse é o caso é um retardado. “Papa” é uma forma de se referir a um pai, tipo um “painho” grego. “Padre”, por exemplo, é a mesma coisa.

———

[1] Ou conclave, onde supostamente é o Espírito Santo quem escolhe seu representante, apesar de não conseguir convencer todos seus subordinados de primeira (onipotência, alguém?) e de às vezes escolher errado, como foi o caso de Ratzo, o Desistente (onisciência? Não, ninguém?). Tirando o fato de existir uma “lista de favoritos”.
Dissonância cognitiva é uma das coisas mais fascinantes que existem.

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Novidades

Nenhuma, na verdade. O blog anda vazio porque estou “focado em outros projetos”, o que é 100% mentira.
Bom, talvez mais perto de 75%. Especialmente se eu considerar “preguiça de blogar sem foco” como foco em algo.

Vou pelo menos contar uma anedota para movimentar o blog.
Ah, tenho uma novidade sim. Descobri que o Twitter finalmente descobriu uma forma de disponibilizar todo o histórico dos usuários e, lendo coisas que tuitei quatro anos atrás, preciso dizer que mudei muito pouco.
Por exemplo, meu décimo primeiro tuíte foi: “Mil livros para ler, pouco tempo para lê-los, estou prestes a comprar mais mil. Não resisto.” Isso aí certamente não mudou (minha coleção de Asimov que o diga).

E, em oito de abril de 2009, me saiu um “A nostalgia de antigamente era melhor que a de hoje em dia…”, o que permanece válido. Tanto mais a cada dia que passa.

Descobri também, de forma acidental, que quem toca bateria nesta música sou eu.

Outra coisa que notei recentemente (antes mesmo de saber dessa ferramenta do Twitter): tem texto meu de 2009 que, na minha cabeça, é mais recente que alguns tuítes da semana passada. “Distemporalidade” é uma palavra? Tipo “dismorfia” mas sobre o tempo. Se for, acho que tenho.
Se bem que se não for eu devo ter também, só que com outro nome. Pois não é só porque você não sabe o que significa schadenfreude que você não sinta prazer no infortúnio alheio.

Tem uns textos bons e recentes no 42., no entanto.
E o Dispersando voltou também. É, talvez este possa ser considerado “outro projeto”.

Preciso ainda colocar aqui inúmeras fotos interessantes que bati nos últimos meses e fazer uma compilação vídeo-fotográfica do meu histórico clínico. Mas já adianto: fui raspado e depilado em lugares diversos. Está tudo devidamente documentado, não há necessidade para preocupações.

E um político daqui espalhou propagandas pela cidade (outdoors mil) com uma foto “sem pose” dizendo que ele é o melhor deputado do Brasil. Felipe é seu nome, Maia é o sobrenome dele e da mais antiga família coronelista do estado. Seu pai é José Agripino, presidente nacional do DEM (nome cretino para um partido), senador há quatro mandatos, governador do Rio Grande do Norte duas vezes, prefeito militar uma e dono da retransmissora da Record no estado.
Felipe Maia, deputado mais vaidoso do Brasil.
Se eu conseguir bater uma foto sem bater o carro no processo, publico aqui também.


ATUALIZAÇÃO
Consegui:
felipe maia
E, pior ainda, foi a Veja que “comprovou”. Nem tinha notado.

Em notícias relacionadas, assista ao vídeo “Culto de Personalidade”, mostrado abaixo.

Acho que preciso tuitar menos e expandir melhor minhas ideias para aproveitá-las em formato comprido aqui. Mas isso eu sempre achei, nem por isso deixei de tuitar.
Acabei que nem contei a anedota. Mas é bom que eu fico com pretexto para voltar.

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Ouvindo a rádio hoje cedo, fiquei sabendo que o vereador Adão Eridan declarou que “[o prefeito] Carlos Eduardo terá o apoio da Câmara para reorganizar [o município de] Natal”.
Eu posso estar errado, mas sempre achei que manter a cidade funcionando fosse uma das prioridades da Câmara. Mas, pelo visto, não é. Ajudar a reconstruir uma cidade aleijada por uma administração bandida é, na verdade, um favor que a Câmara, representada por Adão Eridan em seu décimo sexto ano como vereador, vai fazer ao prefeito.
MAS SÓ SE TIVER PELO MENOS 20 (VINTE) VOTOS – E DESDE QUE CONVERSE PESSOALMENTE COM CADA UM.

O “décimo sexto” está em negrito para tentar me convencer de que o sujeito ainda é vereador, já que há quase um ano – mais especificamente no dia 23 de janeiro do ano passado, Adão Eridan foi condenado pela Justiça a perder o cargo, “verificado que, pela extensão da gravidade dos crimes praticados, é absolutamente incompatível a permanência dos aludidos réus em atividades ligadas à administração pública” e a prisão (“…deverá ser expedido pela Secretaria Judiciária os competentes mandados de prisão dos condenados…”).
Depois de amanhã isso faz um ano. Há três meses e meio ele foi re-eleito. Para seu quinto mandato.

A supracitada administração saqueadora foi a de Micarla de Sousa, eleita prefeita em 2008.
Após ter sido eleita vice-prefeita de Carlos Eduardo em 2002.

Enquanto escrevo isto, a página da Prefeitura de Natal está com a imagem abaixo em evidência:

Prefeitura de Natal devidamente maquiada

18.01 – Decreto da Prefeitura de Natal estabelecerá novas normas para dívidas acumuladas até 2012

Agora, sabem o que não aparece em lugar algum da página? (cliquem aqui para uma captura de tela feita às 08:30 do dia 21 de janeiro de 2013)

LEI ORDINÁRIA Nº 6.374, DE 17/01/2013 (Publicada no DOM de 19/01/2013) (PDF)

“Carlos Eduardo sanciona aumento salarial para ele e Wilma em 40%”
Chamando de “subsídio mensal” (dificultando uma busca mais comum pela palavra “salário”), sancionada no dia anterior e publicada no dia seguinte ao propagandeado Decreto que prevê normas para as dívidas acumuladas, o prefeito da minha cidade acaba de aumentar seu salário de 14 para R$ 20 mil.

Nada mal para uma cidade que só deve mais de cento e vinte milhões de reais.

Bela maneira de começar o dia. Ouvindo de um corrupto condenado e re-eleito que, apesar de ser vereador, ele e seus colegas escolhidos pela população só ajudarão o prefeito que quer colocar as contas do município em dia aumentando o próprio salário se este se reunir pessoalmente com aqueles.

Viva Natal!

Abaixo, uma transcrição da Lei municipal publicada no sábado, dia 19.

LEI Nº 6.374, DE 17 DE JANEIRO DE 2013

Fixa o subsídio mensal do Prefeito, do Vice-Prefeito,
dos Vereadores, do Procurador Geral do Município, dos
Secretários Municipais e dos Diretores da Administração
Indireta para o período da Legislatura de 2013 a 2016, e dá
outras providências.

O PREFEITO DO MUNICÍPIO DE NATAL.
Faço saber que a Câmara Municipal aprovou e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º – Fixa o subsídio mensal do Prefeito Municipal de Natal em parcela única no
valor de R$ 20.000,00 (vinte mil reais); e o do Vice-Prefeito, em parcela única no valor de
R$ 16.000,00 (dezesseis mil reais).

Art. 2º – Fixa o subsídio mensal dos Vereadores para a Legislatura compreendida no
período de 2013 a 2016 em R$ 17.000,00 (dezessete mil reais).

§ 1º – O subsídio de Vereador não ultrapassará 75% (setenta e cinco por cento) do
subsídio estabelecido para Deputado Estadual da Assembleia Legislativa do Estado do Rio
Grande do Norte.

§ 2º – O Vereador poderá renunciar no todo ou em parte o subsídio a que faz jus,
desde que o faça de forma expressa, revertendo-se o valor abdicado em favor da
Administração Pública, ou, ainda, de Entidades Beneficentes, Filantrópicas ou de
Assistência Social, estas últimas mediante indicação do Parlamentar renunciante.

§ 3º – O subsídio mensal dos Secretários Municipais, do Procurador Geral do
Município, do Controlador Geral do Município e dos Presidentes da Administração Indireta
é fixado em parcela única no valor de R$ 12.000,00 (doze mil reais).
Parágrafo Único – Aos Secretários Municipais, ao Procurador Geral do Município,
Procurador Geral da Câmara Municipal, ao Controlador Geral do Município e aos
Presidentes da Administração Indireta, quando pertencentes ao Quadro de Pessoal
Permanente do Município de Natal ou de outro Ente Federativo, fica resguardado o direito
de opção pelo percebimento da sua remuneração de servidor efetivo, acrescida da
gratificação de representação no percentual de 60% (sessenta por cento), sem prejuízo dos
demais direitos e vantagens anteriormente adquiridas.

Art. 4º – Aos subsídios fixados por esta Lei serão sempre asseguradas revisões na
mesma data e sem distinção de índices dos reajustes concedidos ao funcionalismo
municipal, a título de revisão de caráter geral nos termos do artigo 37, inciso X, da
Constituição Federal.

Art. 5º – Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação, produzindo seus efeitos
financeiros quanto ao Poder Executivo e ao Poder Legislativo a partir de 1º de julho de
2013 e 1º de janeiro de 2015, respectivamente.

Art. 6º – Revogam-se as disposições em contrário.

Palácio Felipe Camarão, em Natal/RN, 17 de janeiro de 2013.

Carlos Eduardo Nunes Alves
Prefeito

A piada somos nós

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Antes de continuar aqui, por favor leiam o seguinte texto, publicado na Carta Potiguar (é curtinho e abre em outra janela): Show de Chico Buarque, empresas e privilégios

Leu? Pois bem.
Alguns natalenses estão reclamando que o show de não-necessidade-básica de um artista profissional mundial e multidecadalmente (isso é uma palavra?) famoso, numa casa de shows particular, situada em um shopping center também particular está custando mais do que eles podem pagar.

Eis que no zoológico Twitter começa uma aula de capitalismo básico. Só que ao contrário.

Ou, traduzindo, “cadê alguém para pagar o meu?”

Pronto, agora sim. Clareza é o melhor negócio, sempre.

Isso. Não deseja mal às suas amigas numa mídia a qual elas tenham acesso.

Ah. Eu pensei que talvez ela parasse de desejar o mal dos outros, mas agora ela apenas mudou de time. Sua posição em relação ao bem-estar do que ela considerado “inimigo” continua bem clara.
10 pela consistência, zero pelo humanismo.

Eu reclamo muito. Quem já leu mais de cinco linhas do que eu escrevo está agora pensando para si “SÉRIO!? UAU! CONTE OUTRA! ÁGUA É MOLHADA?”, mas eu gosto de pensar que sempre reclamo de algo justo, que pode ser melhorado. Alguns tipos de reclamação são tão vazios que nem eu, O Reclamão, entendo.
Por exemplo:

“Show” não é cultura, querida.

Oxe, quer cultura mas é contra a cultura? E se “os bacanas” vão de todo jeito, de que adianta o povão não ir?

Alternativamente, podem dizer que você deixou de ser lisa e de tentar comparar aro de óculos com a força nuclear fraca.

Eu não gosto de dizer que quem reclama é invejoso ou o faz de birra, mas tem horas em que é inevitável…
Essa pessoa está reclamando de um preço – segundo ela – mercenário e passa a agredir quem pode pagar. Me parece que ela está reclamando mais de quem vai do que de quem cobra. Que, neste caso, é o cantor.
Ou ela acha que Chico Buarque vem cantar em Natal por caridade?

Outro exemplo de falta de entendimento básico do sistema no qual se está inserido (nota: o tuíte a seguir foi enviado através de um BlackBerry).

Uma passagem de ônibus para Fortaleza custa R$69. Ida e volta, um lache + suco, já custa o preço do show aqui. Se precisasse escolher, escolheria não passar dezoito horas num ônibus para ver uma hora e meia de músicas que estão disponíveis a anos em coletâneas de Os 20 Sucessos De e similares.

https://twitter.com/#!/kadupessoa/status/192247536436781057
Novamente, aparatos oculares e forças fundamentais.

O que Madonna em São Paulo, se apresentando num estádio com 85 mil lugares (fora o gramado), tem a ver com as calças de Chico Buarque se apresentando num teatro com capacidade para pouco mais de miliquinhentas pessoas sentadas?

Outra. Essa aqui entende ainda menos de como as coisas funcionam.
Ou então apenas não sabe organizar bem as ideias antes de tuitá-las:

Eu. Eu não ficaria.

Certamente. A lotação do teatro é pequena. E teatro foi feito para o povo de natal que pode pagar. Tem uma diferença.
Aliás, até quem for de fora daqui, e tiver dinheiro suficiente, pode comprar ingresso. O teatro não foi feito “para o povo de Natal”. Foi feito para o patronato, qualquer que seja, que está disposto a assistir à função corrente.

“Se desfazendo” ou “desmerecendo”? Quero acreditar que ela apenas cometeu um erro cognitivo.
Parece que ela está com medo de que Chico Buarque leia o que ela está dizendo, fique com raiva e nunca mais queira falar com ela. Sem falar que “boa música” não é, digamos assim, exatamente um termo absoluto e incontestável. Especialmente neste caso, se referindo ao supra-citado.

Natal não é Recife, o estádio de Recife não é o teatro do shopping. MacCartney não é Buarque. Suportes para lentes corretivas não são decaimento radioativo. Falsa analogia em vários níveis.

Já pensou a tragédia quando qualquer artista morrer? Como ficarão os fãs de Elvis Presley quando ele morrer e ninguém mais no mundo tiver acesso a seus shows? Seria uma tristeza para mim deixar de ouvir Led Zeppelin e Luiz Gonzaga quando não mais tiver acesso a seus shows…

Que era o preço de um CD no fim da década de 90, quando muita gente comprava discos por causa de uma única música. Lembra? Fora que um show com vinte e cinco músicas não é nada mal. O ruim é ele começar a cantar uma e finalizar depois de um terço completa (o ingresso custa R$380).

“Nosso”? Flávio Rocha já aceita sócios? Tá, eu sei, estou forçando já. Mas lembrem-se que já estabelecemos acima que o teatro não é necessariamente “nosso” ou “deles”. É de quem possa pagar o ingresso.
Outro que parece não querer que Chico fique de mal dele. Aliás, como ele sabe que o cantor não está cobrando mais caro aqui que em qualquer outro lugar? Contratos assim costumam ser sigilosos. Não por alguma cláusula específica de não-divulgação de conteúdo, mas pelo simples fato de que não interessa a mais ninguém o preço que dois particulares acordam entre si.

Ou, por outro lado, pode apenas ser uma pessoa que vive do seu salário normal e não gasta descontroladamente com qualquer besteira como um animal sem funções cerebrais avançadas e, depois de economizar honestamente, pode se dar ao luxo de gastar quatrocentas pilas num agrado para si.
Não precisa ser rico, basta ter uma poupança ou miaeiro e o mínimo de senso de projeção.

Sr. Peão, o salário mínimo não serve para custear esse tipo de coisa. Note:

DECRETO-LEI N.º 5.452, DE 1º DE MAIO DE 1943

CAPÍTULO III
Art. 76 – Salário mínimo é a contraprestação mínima devida e paga diretamente pelo empregador a todo trabalhador, inclusive ao trabalhador rural, sem distinção de sexo, por dia normal de serviço, e capaz de satisfazer, em determinada época e região do País, as suas necessidades normais de alimentação, habitação, vestuário, higiene e transporte.
Art. 81 – O salário mínimo será determinado pela fórmula Sm = a + b + c + d + e, em que “a”, “b”, “c”, “d” e “e” representam, respectivamente, o valor das despesas diárias com alimentação, habitação, vestuário, higiene e transporte necessários à vida de um trabalhador adulto.

Viu que não tem “valor das despesas com o show de Chico Buarque no Teatro Riachuelo”? Nem sequer “despesas com shows” ou ainda menos “despesas com entretenimento de qualquer espécie”? Foi para isso que Javé inventou aquela caixa mágica de imagens dançantes que alguns chamam de televisão (o nome real é televisor, que diz respeito ao receptor, enquanto aquela é a denominação da transmissão, mas vamos voltar ao rumo).
Quem ganha salário mínimo não deve ir a shows de artistas mundialmente famosos em teatros caros. Ou, se quiser ir, tem que começar a economizar de agora.

Finalmente, meu último exemplo de total desconhecimento do sistema financeiro vigente (apesar de, segundo seu próprio perfil, ser empresária):

Como o dono de uma empresa pode “superfaturar” algo em sua própria empresa? #comôfas?
O preço cobrado é esse. No ingresso não vem dizendo “R$1,50 com direito a caipirinha”. É trezentos e tantos reais, todo mundo sabe, tem até escrito nos cartazes e, ao contrário de impostos, só paga quem quer. Como há superfaturamento?
Pode ser um valor alto, um preço caro, exorbitante, etc, mas nunca “superfaturado”.

Uai. Vai ver no Rio, então. Aliás, eu soube que lá é de graça! Aproveita!
Fora que, voltamos inevitavelmente ao começo do ciclo de falsas analogias.

Um outro (não achei o tuíte) chegou a chamar de “elitização da cultura”. Mas não é.
Esse episódio demonstra um outro fenômeno. A “democratização da burrice”.

Enquanto isso, o excelente show do Macaxeira Jazz com o soprador de flauta japonês Nakagawa custou o ultrajante valor de um Real. Isso sim é divertimento para quem ganha salário mínimo.

Finalizando, leiam este trecho do excelente texto de Ítalo Guedes, meu colega de Scienceblogs, sobre a recente “cultura” preferida:

Perguntado por que não canta mais, [Geraldo Vandré] é bem claro – porque não há espaço mais para uma arte de qualidade, há espaço e desejo de consumo de entretenimento, de “cultura” massificada e sem significado.

Novamente, o Macaxeira Jazz se apresentou com um convidado vindo do outro lado do mundo num espetáculo com som bom, ambiente agradável, cadeiras e banheiros, “cobrando” R$1,00.

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Correndo contra as chances

Vinte e poucos anos; dirige um carro compacto (talvez um Fiat Palio duas portas?); baterista (como evidenciado pelo par de baquetas sempre presente no banco do passageiro); estudante, acaba de passar num concurso público; longos cabelos negros desgrenhados contrastando com a pele branca de traços delicados; olhos distantes, dos loucos que planejam. De repente pensa ser uma excelente ideia enviar pedacinhos do seu amigo como prova do sequestro.

Dois amigos.

Tudo começou quando, ao passar no concurso, seu amigo que não passou reclama, se queixando que sua mãe não lhe havia pago um curso preparatório decente. Caso contrário, sem dúvida passaria e estariam os dois hoje como futuros funcionários do Estado.

“Tive uma ideia! Vamos simular um sequestro, aí pedimos dinheiro ao seu pai!”

Não que isso fosse remediar a situação concursal. Nada o faria. Seria apenas pouco mais que uma mesquinha vingança de dois pós-adolescentes contra o que ambos pensavam ser o “Sistema”, representados pelos pais daquele menos aplicado aos estudos.

Tudo acordado mas ainda sem plano definido, o sequestrado é então surpreendentemente subjugado por uma força totalmente inesperada, amordaçado, amarrado, encapuzado e colocado no banco de trás do carro. Pedaços pequenos de sua carne passam então a ser cortados ao longo de todo o seu corpo.
Os cubinhos de carne humana são então enviados ao pai da vítima que, devido à violência extrema improvisado sem seu consentimento e grande perda de sangue, está agora em choque. Mal se move e pouco sente, apenas o frio no coração o aflige enquanto é levado ao hospital no Palio verde escuro.

Contanto, devido à emocionalidade do plano, as circunstâncias não se desenvolvem como esperadas. O trânsito está ruim e o hospital ainda muito longe.
Não é nem o trânsito em si, é a cidade se comportando de forma estranha.
O horizonte era uma cortina azulada de precipitação vindoura mas nunca chegada.

Do ponto de vista da direção, a loucura do ato somada ao desespero da lentidão era multiplicada pela pouca visibilidade, resultando em atos cada vez mais intensos e menos justificáveis.
Como forma de tentar dissipar um pouco a tensão, as baquetas no banco ao lado são agarradas e rufadas em todas as superfícies (direita, direita, esquerda, esquerda, direita, direita, esquerda, esquerda…); volante, marcha, encosto de cabeça, corpo convulsionante do amigo, vidro da janela, teto do carro. Tudo isso enquanto roda sobre o banco, dobrando as pernas ao virar-se para trás.
O tactac constante (direita, direita, esquerda, esquerda..) mudando apenas de timbre, sempre em ritmo, sublinhando as palavras “estamos indo para o hospital, estamos indo para o hospital”, proferidas incessantemente (por qual motivo? Para tentar acalmar-se? Acalmar o amigo? Informar o espectador?).

tactac tactac tactac

Voltando-se para a frente, acelera. Não importa mais a chuva, o trânsito, as circunstâncias agora são desprezíveis. O mantra (“estamos indo para o hospital, estamos indo para o hospital”) de tão repetido e marcado (tactac tactac) torna-se verdade. Eles agora estão se encaminhando para o hospital. Não importa o resto do mundo.

Cruzamentos são cortados; sinais são ignorados, mesmo porque eram invisíveis até o momento em que são passados; cortinas cinza-azuladas são transpostas, dando lugar a um ambiente ainda mais úmido e cinzento; acidentes iminentes continuam no ramo das possibilidades; pais aflitos por desconhecer o paradeiro do filho não sabem que dele são provenientes os pedaços ensanguentados de carne à sua frente, numa caixa sem marcas e sem endereço, um espetáculo chocante e de péssimo gosto; a velocidade aumenta, o mantra aumenta, o amigo sangra e lentamente encontra a morte.

Enquanto isso, naquela atmosfera azulada de uma chuva que nunca vem, à espera de uma batida mortal que nunca acontece, a sequestradora, a motorista do Fiat escuro, a futura funcionária pública, sua amiga, a sua algoz que possessa da súbita loucura violenta que a fez tirar pedaços de sua carne e enviá-las a completos desconhecidos, chora. Uma lamúria distante de uma lástima reservada aos loucos que não sabem porque choram, apenas se lamentam do fato de precisarem chorar com tamanha urgência.

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O descrito acima é a melhor descrição que consegui fazer de um sonho muito vívido que tive na manhã do dia oito de agosto. Estranhamente, consegui não me esquecer dos mais intrincados detalhes durante o dia.

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