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Posts Tagged ‘Conto’

– A gente precisa sair mais de casa.
– Por que? O gás está vazando?
– Não, a gente vive enfurnado. Vamos sair?
– Dessas roupas?
– Não, sair de casa.
– Você que ir dançar?
– Só se for dançar deitada.
– E se a gente sair para comer?
– Para eu voltar comida?
– Melhor que ser gozada em casa.
– Que tal um pastel?
– De cabelo? Quero.
– Aff. Você tem fome não?
– Tenho fome de justiça!
– E sede de vingança?
– Não, eu bem que tomaria uma Fanta agora.
– Ou uma Soda boa? Só se for agora.
– Ou se for daqui.
– E se for da rua?
– Concordo. Vamos ficar em casa.

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– Amiga, você não vai acreditar. Acabei de ser abordada aqui na frente.

– Ai, como assim? Você foi assaltada?

– Não, deusmelívre! Foi um cara maltrapilho aqui em frente ao seu prédio, agora mesmo enquanto descia do carro. Ele fedia tanto, aff!

– Em frente ao meu prédio!? Ah, vou ligar para o porteiro agora para ele chamar a polícia! Esta cidade está passando dos limites, já tenho que aguentar pedinte no meu bairro e agora querem que aceite em frente ao meu prédio? Daqui a pouco vão querer que eu adote…

– Foi horrível, ele fedia tanto!

-…olhe Francisco, não interessa, não quero esse tipo de gente aqui perto. Minha amiga foi abordada agorinha, você deve até ter visto. Pois é, então resolva. Tchau.

– E aí?

– Você acredita que ele disse que não tem crédito no celular? Não quero saber, ele é o porteiro, ele que tem que cuidar disso. Querem que eu resolva tudo agora? Daqui a pouco vão querer que eu lave as escadas também. Esse seu perfume é tão gostoso! Estava sentindo lá da cozinha.

– É bem gostoso, né? E é suave, também. O bom de perfume da Chanel, que eu acho, é usar muito. Sair por aí toda perfumada, todo mundo percebe logo quando você está por perto só pelo cheiro.

– Adoro! Combina com sua personalidade. Mas me conta, e o cara lá embaixo?

– Ai, que ódio! Só no Brasil mesmo uma coisa dessas. Todo sujo, a roupa rasgada, faltando uns pedaços. Isso devia ser crime, ficar expondo o corpo…

– Ele se expôs para você?

– Não! Exposto que eu digo é a roupa, toda rasgada, com uns os pedaço do corpo dele mostrando… eu não pedi para ver isso, por que ele pode sair por aí mostrando?

– Credo.

– É… estou pensando em fazer uma plástica.

– Lipo?

– Também. Quero aumentar meus seios. Adoro usar decote, você sabe.

– Sei.

– Aí vou ficar bem bonita com aquele decotão até o umbigo, hehehee

– HAHAHA!

– …e faço lipo também porque não aguento mais usar este shortinho com blusa comprida. Combina melhor com blusinha curta, mostrando aquela barriguinha chapada.

– E com peito novo dá para usar vestido de costa-nua também.

– Ai, adoro! Esta blusa aqui tem um pouquinho também, olha.

– Ah, pensei que mostrava só o ombro.

– É. Tem mais é que mostrar mesmo, né?

– Tem. Ai, pera, vou atender o interfone.

– Tá.

– Pronto, foi embora já.

– Que bom! Ele era tão esquisito, você não tem nem ideia!

– Era feio?

– Nem sei! Era tão esquisito que nem dava para saber se era feio. A cara queimada do sol, toda suja, o cabelo todo desgrenhado… como é que alguém consegue ficar com a cara coberta de sujeira daquele jeito e não lavar? Só pode ser de propósito, para chocar gente de bem.

– Eca! A cara suja de quê?

– Sei lá, sujeira. Como que caiu num chão sujo de cara e não limpou, como tivesse areia na cara, poeira, sei lá. O cabelo todo duro e sujo, dava para ver de longe, como quem não gosta de lavar o cabelo, sabe? Tão sujo que tinha várias cores diferentes, a coisa mais horrível do mundo! Todo desigual, maior dum lado, ui!

– Ah, por falar em cabelo, onde você vai fazer o cabelo pro casamento da sua cunhada?

– Ai, não me compara àquele sujo! hihihihi

– Eca, nãããã! hehehehe Desculpa!

– Nem sei ainda, miga. Acho que vou naquele salão que você gosta. É lá que fazem uns penteados bem diferentes, né?

– Isso.

– Estou pensando em fazer um que vi numa revista. Mas tem que ter muuuuuito spray. Tem que armar bem o cabelo, é um penteado bem moderno, daqueles meio assim, sabe?

– De lado? É assimétrico, que fala?

– É! Isso! A-DO-RO!

– Sério?

– AMO! Quanto mais pro lado, melhor! Aproveito e faço luzes e mechas. Lá faz maquiagem também, né?

– Acho que faz, nunca fiz.

– Quero uma maquiagem bem discreta, tipo as que estão fazendo hoje em dia nas noivas, sabe? Tons terra, em camadas, sabe?

– Degradê?

– Não, vários tons em cima um do outro, se sobrepondo. É tipo como eu faço em casa, olha aqui em mim, dá para ver as camadas?

– Ah, entendi.

– Aqui estou com tons mais areia, mas no casamento quero aparecer melhor nas fotos, ficar mais corada. Bem muito bronzer! Quero ficar com cara de garota de praia!

– Linda! Vai chamar mais atenção que a noiva!

– É para isso que a gente vai, né? hihihi

– Ai, amiga, você é péssima! hehehe

– Amiga, que foto linda!

– Linda, né? Foi da viagem mês passado.

– Lá tem neve?

– Neste época tem, é lindo!

– Adoro neve! Melhor clima para tomar vinho.

– E lá tem os melhores vinhos do mundo!

– Sério? Ai, quero ir.

– Sério, vale a pena demais. Os meninos vão adorar!

– Espero que sim. Por falar nisso, que horas são? Preciso avisar que eles vão ter que voltar da aula com o pai hoje quando ele sair pro almoço.

– Ele almoça em casa?

– Nada! Quase nunca dá tempo e sempre acabo almoçando só. Ele tem só uma hora de intervalo. Minha empregada sabe cozinhar mas todo dia não dá.

– A gente devia almoçar junta pelo menos duas vezes por semana, né?

– Também acho. Ninguém merece ter que sair para buscar os meninos no colégio e voltar para casa para almoçar. Onde já se viu, sair de casa e voltar pro almoço? Não dá… ainda mais com o trânsito que tem na frente da escola. Uma ruma de gente parada no meio da rua esperando menino sair. E tem uns que estão estacionados, com jeito de quem passou o dia todo dentro do carro. Tem o que fazer não, é?

– Vamos saindo? Já estou ficando com fome.

– E eu com sede desde que você falou em vinho. Vamos beber duas garrafas hoje? Só porque a gente pode? hihihi

– Vamos! hahahaha

– Ai, será que o homem ainda está lá?

– Não, Francisco disse que ele saiu.

– Desocupado. Odeio gente desocupada! Só quer se aproveitar do dinheiro dos outros, se oferecer um emprego não quer!

– Pois é! Vagabundo!

– Não sabe o valor do dinheiro, só sabe pedir! E pior, eu sei que não vai usar para comer ou trocar de roupa, quer dinheiro para se drogar ou beber! Mentiroso safado!

– Certeza!

– Já pensou, eu dar o meu dinheiro para quem não quer nada com a vida? Pega o dinheiro e vai direto comprar drogas e usar escondido. Tudo para não encarar a realidade, né?

– Ninguém merece!

– De jeito nenhum! O dinheiro que eu tenho na carteira não é para dar a vagabundo drogado.

– Você vai pagar o almoço com dinheiro?

– Não, o almoço vou passar no cartão. O dinheiro é pro meu Rivotril que vou comprar no caminho. Não gosto de comprar no cartão porque meu marido sempre olha o extrato e vem brigar comigo. Não posso com isso, me casei só para sair de casa e não ter que ficar ouvindo coisa!

– Sei como é, amiga.

– Vamos passear no shopping depois? Tem muita coleção nova chegando.

– Vamos!

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Correndo contra as chances

Vinte e poucos anos; dirige um carro compacto (talvez um Fiat Palio duas portas?); baterista (como evidenciado pelo par de baquetas sempre presente no banco do passageiro); estudante, acaba de passar num concurso público; longos cabelos negros desgrenhados contrastando com a pele branca de traços delicados; olhos distantes, dos loucos que planejam. De repente pensa ser uma excelente ideia enviar pedacinhos do seu amigo como prova do sequestro.

Dois amigos.

Tudo começou quando, ao passar no concurso, seu amigo que não passou reclama, se queixando que sua mãe não lhe havia pago um curso preparatório decente. Caso contrário, sem dúvida passaria e estariam os dois hoje como futuros funcionários do Estado.

“Tive uma ideia! Vamos simular um sequestro, aí pedimos dinheiro ao seu pai!”

Não que isso fosse remediar a situação concursal. Nada o faria. Seria apenas pouco mais que uma mesquinha vingança de dois pós-adolescentes contra o que ambos pensavam ser o “Sistema”, representados pelos pais daquele menos aplicado aos estudos.

Tudo acordado mas ainda sem plano definido, o sequestrado é então surpreendentemente subjugado por uma força totalmente inesperada, amordaçado, amarrado, encapuzado e colocado no banco de trás do carro. Pedaços pequenos de sua carne passam então a ser cortados ao longo de todo o seu corpo.
Os cubinhos de carne humana são então enviados ao pai da vítima que, devido à violência extrema improvisado sem seu consentimento e grande perda de sangue, está agora em choque. Mal se move e pouco sente, apenas o frio no coração o aflige enquanto é levado ao hospital no Palio verde escuro.

Contanto, devido à emocionalidade do plano, as circunstâncias não se desenvolvem como esperadas. O trânsito está ruim e o hospital ainda muito longe.
Não é nem o trânsito em si, é a cidade se comportando de forma estranha.
O horizonte era uma cortina azulada de precipitação vindoura mas nunca chegada.

Do ponto de vista da direção, a loucura do ato somada ao desespero da lentidão era multiplicada pela pouca visibilidade, resultando em atos cada vez mais intensos e menos justificáveis.
Como forma de tentar dissipar um pouco a tensão, as baquetas no banco ao lado são agarradas e rufadas em todas as superfícies (direita, direita, esquerda, esquerda, direita, direita, esquerda, esquerda…); volante, marcha, encosto de cabeça, corpo convulsionante do amigo, vidro da janela, teto do carro. Tudo isso enquanto roda sobre o banco, dobrando as pernas ao virar-se para trás.
O tactac constante (direita, direita, esquerda, esquerda..) mudando apenas de timbre, sempre em ritmo, sublinhando as palavras “estamos indo para o hospital, estamos indo para o hospital”, proferidas incessantemente (por qual motivo? Para tentar acalmar-se? Acalmar o amigo? Informar o espectador?).

tactac tactac tactac

Voltando-se para a frente, acelera. Não importa mais a chuva, o trânsito, as circunstâncias agora são desprezíveis. O mantra (“estamos indo para o hospital, estamos indo para o hospital”) de tão repetido e marcado (tactac tactac) torna-se verdade. Eles agora estão se encaminhando para o hospital. Não importa o resto do mundo.

Cruzamentos são cortados; sinais são ignorados, mesmo porque eram invisíveis até o momento em que são passados; cortinas cinza-azuladas são transpostas, dando lugar a um ambiente ainda mais úmido e cinzento; acidentes iminentes continuam no ramo das possibilidades; pais aflitos por desconhecer o paradeiro do filho não sabem que dele são provenientes os pedaços ensanguentados de carne à sua frente, numa caixa sem marcas e sem endereço, um espetáculo chocante e de péssimo gosto; a velocidade aumenta, o mantra aumenta, o amigo sangra e lentamente encontra a morte.

Enquanto isso, naquela atmosfera azulada de uma chuva que nunca vem, à espera de uma batida mortal que nunca acontece, a sequestradora, a motorista do Fiat escuro, a futura funcionária pública, sua amiga, a sua algoz que possessa da súbita loucura violenta que a fez tirar pedaços de sua carne e enviá-las a completos desconhecidos, chora. Uma lamúria distante de uma lástima reservada aos loucos que não sabem porque choram, apenas se lamentam do fato de precisarem chorar com tamanha urgência.

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O descrito acima é a melhor descrição que consegui fazer de um sonho muito vívido que tive na manhã do dia oito de agosto. Estranhamente, consegui não me esquecer dos mais intrincados detalhes durante o dia.

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O texto a seguir é baseado em fatos reais.
Escrito, mas nunca publicado, em 25/10/2009 para um certo site do qual fui colaborador.

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Situação objetiva: encontro fortuito entre três seres; um hominídeo, um felino e uma blatídea.

Reação subjetiva do humano:
Eita, que massa! Minha gata achou uma barata!
Vai, Gata! Destroça essa barata!
Argh, quer voar para cima de mim, sai! Pega ela, Gata!
Hahahaha, que cambalhota, hein!? Não desiste não!
Hum, agora está de tocaia… Será que dá para alcançar embaixo desse móvel?
Hahaha, barata burra, saiu do esconderijo! Quer morrer mesmo essa desgraçada!
Vou deixar o chinelo preparado aqui para não ter erro.
Ah, matei! Vou pegar a pá para jogar isso no lixo! Que cheiro podre!
Barata otária!

Reação subjetiva da gata:
Hum.. se move. Brinquedo.
Ué, parou de se mexer? Opa, voltou!
O que é isso se mexendo por cima de mim? Gostei, vou derrubar. Brinquedo.
Nossa, como o mundo rodou rápido ao meu redor agora! interessante.
Por que eu estou olhando mesmo para debaixo desse móvel? Opa, lá vem um negócio se mexendo. Brinquedo!
Ops, meu brinquedo quebrou. Cheiro esquisito.
Olha quem está aqui também, só agora percebi; o gato maior que me dá comida de graça quando eu mio. Otário!

Reação subjetiva da barata:
Receptores infravermelho estimulados. Espectro ultravermelho superestimulado.
Sensores de movimento engajados. Fonte de infravermelhos aproximando-se.
Presença detectada.
Iniciar manobras evasivas. Hexapêndice terrestre, velocidade máxima.
Contusão detectada. Flanco direito. Estabilizador invertido. Iniciar desinversão. Engajar giroscópio.
Atacante veloz, possivelmente terrestre. Iniciar procedimento evasivo aéreo.
Segunda fonte de infravermelho detectada. Movimentos erráticos dificultam decisão tática. Inverter direção.
Sensores externos indicam dano em superfície exoesqueletal. Possível rachadura em membrana de vôo.
Altímetro indica perda de altitude. Dano em membrana de vôo confirmado. Preparar para pouso forçado.
Detectado choque mecânico em armadura externa. Controlar pressão interna. Abrir vaso circulatório para evitar ruptura.
Iniciar reparos. Adotar tática evasiva terciária. Desligar funções motoras. Exalar feromônios de defesa.
Ambas as fontes de infravermelho se afastam.
Iniciando computação RPM (reação previsível de mamíferos). Dados computados. Mais provável próximo destino: de volta ao lar.
Incluir relátorio recente de batalha e encontro alienígena em banco de dados central.
Espécies: Homo sapiens, Felis silvestris.
Tática utilizada: usual.
Resultado final: usual.
Taxa de previsibilidades atual: 98,5%
Veredito final: otários.
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Politicamente correto – conto

Peixoto tinha um furúnculo.

Três semanas antes de conseguir um emprego como assistente de balconista de atendimento numa entrevista que aparentemente foi muito bem apesar de seu nervosismo, Peixoto Jiang van Helmut (brasileiro filho de mãe chinesa e pai holandês) começou a sentir um incômodo na base da coluna ao que não deu muita atenção.

Quinze dias após a constatação inicial, ele descobriu (durante um auto-exame propício para um pôster central no Kama Sutra) que se tratava de um furúnculo que, por ser perto de onde as costas mudam de nome, dificultava-lhe o ato de sentar.
Ele não conseguia ficar quieto na cadeira, constantemente se encostando e desencostando, inutilmente tentando achar uma posição em que não doesse.

Suas não-muito-atraentes feições sino-germânicas haviam sido ainda mais comprometidas durante sua primeira infância, quando acidentalmente tropeçou num sapato de madeira do pai e caiu de cara no último degrau da escada de casa.
O resto da queda escada abaixo contribuiu para sua tendência em se assustar facilmente e sua dificuldade em iniciar sentenças verbalmente (ele também tinha dificuldade em criar frases mentalmente, mas essa característica era mais dificilmente notada).

Peixoto não tem barba (graças a genes glabros que herdou da mãe) e sua pele branca (de genes caucasianos do pai) é muito sensível ao sol e, apesar de seus 32 anos, seu rosto já é bastante entrincheirado por rugas. Esses traços combinados lhe dão uma aparência de um garoto de 15 anos que envelheceu rápido demais.

Ontem, quase dois anos completos após entrar naquela firma (seu primeiro emprego), Peixoto foi demitido.

Sua ascensão anti-meteórica (meteoros caem, não sobem) deixaria qualquer guru de auto-ajuda impressionado e qualquer empregado com inveja, mas nunca falaram um “ai” dele, longe disso! Arriscaria a dizer talvez até diametralmente oposto a isso. Ele era o funcionário mais bem tratado, mais bem recebido e mais ajudado de toda a empresa.
Apesar de poucos lhe dirigirem a palavra.

Pouco depois do cargo inicial de ABA, ele passou a ser Balconista de Atendimento e, apenas algumas semanas mais tarde, já era Balconista de Atendimento Diferenciado.
Quando conheceu o presidente da empresa, este rapidamente resolveu criar um cargo especialmente para Peixoto, que a partir de então seria chefe do Departamento Especial de Atividades Regulares.

Cinco meses após ter sido primeiramente contratado e apenas vinte e quatro horas antes de uma vistoria pela Corregedoria, sua posição foi mais uma vez elevada, sendo ele agora o sub-presidente da Chefia de Operações, Atividades Regulares e Direcionamento de Recursos.

No aniversário de um ano da sua contratação, a mídia local foi chamada para cobrir a festa de criação de ainda mais uma posição a ser ocupada por ele, que passou a ter em seu crachá o título de “Presidente Operativo de Recursos e Atividades Autônomas e Mestre de Armazenamento”, mudado novamente sete meses depois para “Presidente Sênior do Setor de Recursos, Atividades e Armazenamento”, durante coincidentemente outra entrevista coletiva de imprensa.

Neste ponto cabe salientar que, apesar de todos os nomes inventados, Peixoto jamais foi transferido das suas funções reais de almoxarife/arquivista.

O motivo real de tanta pompa (e também a causa da eventual demissão) foi a impressão deixada durante a entrevista com o chefe do RH, o Diretor de Operações e o Vice-Presidente, onde Peixoto respondeu a maioria das perguntas com “eeeeeeeerrrrrr… eu acho hummmmmm… que eu aaaaaaaaaaaaaahhhhhh” mal conseguindo formar frases coerentes, balbuciando bastante, contorcendo seus traços estranhos e se mexendo incontrolavelmente na cadeira.
Os entrevistadores se entreolharam desconfortavelmente, esperando as reações dos outros até que decidiram, praticamente em uníssono, contratá-lo.

Já lá dentro, Peixoto subia e subia, mudando cada vez para cargos cada vez mais altos (apesar de sua função real jamais mudar) e a sensação de que tinha responsabilidades cada vez maiores o fazia pensar que não tinha tempo para sequer ir ao médico.

Tudo mudou sexta-feira, quando ele saiu meia hora mais cedo para finalmente ter seu furúnculo removido e ter um final de semana inteiro para esperar sarar, funcionário correto que era.
Segunda-feira logo cedo, começou o burburinho e todos comentavam como ele estava quieto, alguns até cogitaram chamar uma ambulância, quando finalmente alguém resolveu falar com Peixoto.
Mas somente no dia seguinte, anteontem.

Quase dois anos do ótimo tratamento que recebia na firma fizeram maravilhas para seu brio e agora, diferentemente do dia da entrevista, ele conseguia articular as palavras e falar com certa desenvoltura (apesar de sua capacidade cerebral não permitir que ele lembrasse que aquele balconista em particular jamais havia lhe falado antes), então contou que finalmente havia removido o furúnculo, causador de seu balanço ritmado na cadeira.

“Então você não é autista!?”, exclamou o funcionário perplexo, rodeado de outros empregados igualmente desnorteados.

Ontem ele foi demitido.
E hoje a firma teve que devolver o diploma de Empresa Consciente que ficava exposta na sala do presidente.

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Estava eu numa roda de amigos quando chegamos no mote banheiro.
Eu então comecei a descrever como são os banheiros dos funcionários do local onde trabalho:

O banheiro feminino tem uma ante-sala, um armário para bolsas, espelho de corpo inteiro, pia de mármore, uma sorte de toalhas de rosto, gabinete para guardar escovas de dente, perfume, sabonete líquido, dois vasos separados por portas próprias, papel higiênico perfumado folha tripla e um área de aproximadamente 30m².

O masculino tem uma pia com encanamento exposto distando sete centímetros do vaso sanitário, um espelhinho de feira, algo amarelado e ameaçador que eu acho que já foi uma toalha, papel higiênico modelo lixa-de-unha e um pedaço de sabão em pedra.

Ao ouvir isso, um dos meus amigos, especialista no assunto, tendo orgulho de conhecer vários reservados, cubículos, bojos, vasos e afins espalhados pelo mundo, disse:

Isso é porque a dona do cartório é mulher.
Se fosse homem, o banheiro feminino seria como o masculino é hoje.
E o banheiro masculino seria só um buraco no chão.

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Formas de pensar

A abordagem mais precisa nem sempre é necessariamente a melhor.
Ou a mais prática.

Sexta-feira, quinze minutos para o fim do expediente.

Diálogo com uma colega de trabalho, iniciado por mim:

– E aí, vai sair hoje?
– Vou não, tenho que me depilar ainda… Por que, estava pensando em ir aonde?
– Não sei, queria exatamente uma sugestão de um lugar novo, ando meio abusado dos lugares de sempre.
– Pois é, eu ouvi falar de um lugar muito bom ali em Ponta Negra… (nesse momento minha mente divaga, ainda pensando nessa depilação que, aparentemente, ou leva uma noite toda para ser executada ou incapacita a depilada a ponto desta perder um turno inteiro em agonia, e não escuto o nome do lugar).

Mais um pouco de conversa-mole se desenrola enquanto os minutos finais passam dolorosamente devagar, como se o relógio afixado à parede estivesse cruzando o horizonte de eventos de um buraco negro e cada segundo demorasse uma literal eternidade para completar seu trajeto na seta do tempo, onde os ponteiros jamais obtem energia suficiente para adquirir a velocidade de escape para fugir da altíssima gravidade gerada pelos últimos cinco minutos de uma semana trabalhosa.

(Pensar na morte de estrelas e seus efeitos é um artifício que eu uso muito quando quero me distrair.
Especialmente se a conversa está muito chata.)

Quando finalmente confirmei visualmente que não iria chegar mais trabalho pois a porta da frente já estava na chave (não mais clientes por ali surgiriam) e decido ir embora, a colega, me tirando por completo do transe em que me encontrava, me pergunta: Igor, você tem habilidades manuais?

Eis que novamente meu pensamento se desfaz numa névoa de abstrações fantasiosas sobre Evolução, apêndices primitivos que se fariam em nadadeiras e, posteriormente, em mãos, Homo habilis e suas ferramentas, fogo, pedra lascada, metal, malabarismo, microchips

– Sim, sou bastante habilidoso.
– Ótimo, então você vai me ajudar a fazer um chapéu de malandro!

Por um breve instante temi, ao imaginar um boné virado de lado, mas logo percebi que não se tratava de chapéu DO malandro, mas um DE malandro.
Mas, Porta dos Desesperados de lado, aquela informação não me ajudou muito.

– Como é um chapéu de malandro?
– É aquele que chamam de “coco”.
– Ah! Um chapéu-coco. Eu tenho um.
– Não é um chapéu-coco não, é um chapéu de malandro.

Enquanto elucidava definitivamente a questão, ela simultaneamente produzia duas cartolinas brancas e uma régua.

– É para um trabalho de escola de Fulaninho (filho de outra colega).
– Oxente, e por que ela não faz o chapéu?
– Porque quem faz essas coisas sou eu.
– Uai, e por que você não faz?
– Eu estou fazendo.
– Se quando você diz “fazer” está querendo dizer “designar funções”, então está correta, mas…
– Ela disse que a cabeça dele tem sessenta e sete centímetros de diâmetro. (olha para a régua) Não, votz! Né isso tudo não!
– Ela deve ter medido a circunferência. Se for realmente o diâmetro esse menino vai ter que usar um balaio na cabeça.
– E agora, como é que a gente vai saber?
– É só usar pi.
– Pi? E eu sei lá usar isso!
– Pi é razão entre a circunferência e o diâmetro de um círculo…
– Aff, eu quero saber disso não (e se encaminha para a copa).
– …então é só dividir o número que ela deu, 67cm, por 3,14, o que dá aproximadamente vinte e um centímetros. Agora, usando a régua, marco um ponto na metade dessa distância, dez centímetros e meio, e uso a mesma como um compasso improvisado para marcar o círculo que deverá ser cortado…
– Pronto, isso aqui deve dar para uma cabeça de criança!

A solução dela, medido sobre sua própria cabeça e podendo ser usado como molde para o corte: um prato de sobremesa.

P.S. eu realmente sou muito habilidoso com as mãos, mas meu cérebro tem mania de achar que é esperto…

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