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Posts Tagged ‘Bullying’

O problema de envelhecer é ficar velho. Essa frase pode parecer uma tautologia ou um daqueles ditames de bolso do tipo “quem conhece, sabe” ou “para quem gosta, é bom” (ou ainda o infame “para quem sabe, é fácil” que eu costumava ouvir muito em época de prova na escola), mas ela melhora com definições mais precisas.

“Envelhecer” significa continuar vivendo, que é o que todos nós neste momento estamos fazendo. O “ficar velho” não é o mesmo que viver por muito tempo (que geralmente só é sinônimo de sabedoria no entendimento popular – que, via de regra, não é nem uma coisa, nem outra); está, sim, mais para que se tornou obsoleto [1].

Assim como as juntas endurecem e a musculatura atrofia, endurece também a parte antes maleável da nossa personalidade que nos fazia gostar de aprender (quem nunca se animou quando descobria como ajustar a hora num vídeo cassete?) e atrofia a região do cérebro que nos dá capacidade de entender e aceitar novas informações (óbvio que DVD é melhor que CD, mas esse tal de Blu-ray só existe para me prejudicar).

"Bullying não existe, o que existe é frescura."

A frase pode ser reescrita como “O problema em continuar vivendo através das mudanças da sociedade é solidificar seus próprios conceitos pessoais em detrimento do bem-estar coletivo”. A frase que dá título a este post é um exemplo bom disso.

O fato do termo não existir antigamente não significa que a atitude não existisse. E, mesmo que esse fosse o caso (que não é), o fato de ele não ter existido antes não significa que ele não exista agora. O que também existe é uma capacidade aparentemente infinita de negação e prepotência, um “tire isso daqui porque isso não existe porque só eu sei o que é verdade e isso aí não é” (tipo o secretário de segurança do Rio Grande do Norte dizendo que os cadáveres a céu aberto no pátio do ITEP documentados em vídeo não existem).

Isso é coisa de gente amargurada com a vida. Não por ter sofrido e não ter conseguido lidar com o sofrimento mas somente pelo fato de estar velho e temer tudo que é novo. Uma síndrome de egoísmo recalcado de “eu não sei o que é isso e não quero que mais ninguém saiba porque eu não estou disposto a aprender”. Ou algo assim. [2]

Eu apanhei no colégio, apanhei dos meus pais em casa e cresci normal.

É. Virou um adulto que acha que bater em criança não só é normal como também deve ser incentivado, inclusive na escola, por desconhecidos. Porque isso vai fazer com que ela cresça “normal”.

Infelizmente, eu sei o que é isso pelos dois lados.

Cresceu para ser um adulto normal, daqueles que defendem a diminuição da maioridade penal e a criminalização do aborto. Porque o problema não é social e, sem dúvida, também não é o crime, mas o criminoso. Adequar a punição ao crime, independente da idade, não é opção, tem mais é que prender esse bando de pivete, que quanto mais jovem, pior. Por isso que deve apanhar e ser preso o quanto antes. Preferencialmente assim que nascer ao fim de uma gravidez indesejada porém forçada.

Um adulto normal que acha que “racismo não existe“, “bandido bom é bandido morto” e que pobre tem mais é que se lascar mesmo, porque ninguém nunca é acusado injustamente e emprego tem sobrando. Você nunca viu “alguém na rua pedindo emprego ao invés de esmola” e lá na sua casa “tem uma pia cheia de louça suja“. Não que você vá contratar um imundo desses para entrar na sua casa. Mesmo porque ele deve ser ladrão, né?

A criança que apanhou tanto em casa quanto na rua cresceu completamente normal e bem ajustada, achando que maconha é igual a crack e heroína, que “destrói neurônios” e, por isso, deve ser proibida e reprimida. Álcool, por outro lado, deve continuar sendo vendido, já que “é uma escolha pessoal beber ou não” e isso “não prejudica mais ninguém além do bebedor“.

Cresceu achando que “bom mesmo era na Ditadura“, porque “não havia corrupção, inflação nem impostos altos“. E ainda por cima “a música era boa e não essa seboseira de hoje em dia“, que deveria ser censurada e proibida. [3]

Adulto que acha um absurdo existir ateu e que a falta de deus no coração é o problema de hoje em dia, onde todo mundo é egoísta e só pensa em si mesmo. Tem que seguir a Bíblia porque só ela tem a Verdade. Não fala em penicilina nem manda ferver água antes de beber e tem também aquela parte controversa onde Jesus ordena que um sujeito “vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres” mas isso você acha que é uma parábola ou uma metáfora, porque fé é a única forma de salvação. [4]

Gays não devem casar porque dar esse direito a eles, de alguma forma, diminui os seus direitos, que permanecerão inafetados. Você cresceu sabendo que gays não podem casar porque isso é proibido pela sua religião (que, aliás, ordena o assassinato sumário dos envolvidos), apesar de isso ser uma questão civil num estado laico. Mas você quer continuar tendo o direito a se divorciar. Só por garantia, sabe como é

Velho durão que nunca sofreu problemas psicológicos por apanhar em casa e tem certeza que a maioria dos casos de estupro são culpa da vítima que anda por aí de roupa apertada, provocando. Quando entram na sua casa para roubar sua TV ou quando abordam você na rua e levam sua carteira, por outro lado, claramente a culpa não é sua por ter bens e andar com eles.

Aliás, mulher já dá motivo, né? Se leva um tapa na cara, do marido, é porque mereceu. Deve ter pensado em voz alta ou provocado um pedreiro a assobiar quando andava na rua (mulher é bicho perigoso, não pode dar chance!). Porque só apanha quem merece mesmo. Menos quando você não coopera e leva uma coronhada do sujeito que queria levar seu relógio. Ele merece apanhar porque deu uma surra em você, que não merecia.

Prega que “feminismo é sexismo ao contrário“, pois, a exemplo da união homoafetiva citada previamente, lutar por direitos iguais para ambos os sexos é, de alguma forma, cercear os direitos dos homens brancos cristãos de classe média que “não são todos iguais, espalhar esse tipo de estereótipo é coisa de mulher“. Reclama que “mulher quer ter os direitos iguais só na hora de ganhar dinheiro mas não quer servir o exército nem trocar pneu[5] mas acha supimpa que teve cinco dias de folga quando casou e jamais diria um “ai” contra a licença paternidade (que, talvez, poderia ser, tipo, um pouco mais longa?). Ter mais dinheiro entrando na conta também não seria ruim, você só não sabe como isso poderia acontecer, não é?

Maria da Penha Maia Fernandes - Nunca precisou sair mostrando os peitos para lutar pelo direito das mulheres! Não, nunca precisou mostrar os peitos. Só precisou recorrer a um tribunal internacional após sobreviver a uma tentativa de eletrocução em sua cadeira de rodas depois de ter ficado paraplégica por ter sido baleada nas costas, enquanto dormia, pelo marido que batia nela e nos três filhos menores de sete anos para que, ao fim de dezenove anos de luta, este ficasse preso por apenas dois anos.

Não deixa a esposa trabalhar porque “não vou deixar minha mulher me sustentar” ou porque “lugar de mulher é na cozinha“, já que mulher quando sai de casa pode “ter ideias” e deixar de ser “mulher de família” que, deus-o-livre, comece a pensar e agir como um ser independente e autônomo. Por outro lado, se bandido for preso, tem mais é que deixar a família desvalida mesmo!, porque auxílio reclusão não deve existir! já que quem não trabalha é vagabundo!, especialmente se for pobre. Mesmo que tenha se tornado pobre somente após a prisão do arrimo de família. Que não deixava a esposa trabalhar.

Videogames causam violência, mas o fato de você ter sido criado como um leão de circo dos anos 30 não. Você é a favor da violência contra crianças mas não é violento, já que no seu tempo não existia Mortal Kombat ou GTA. Só dá “palmada educativa, que nunca fez mal a ninguém“, já que no seu tempo não existia essa violência toda de hoje em dia que começou a pouco tempo e só depois de começarem a proibir violência infantil.

Você é contra a violência à sua integridade física e sua propriedade mas acha que ladrão deve ser morto e não vê nada errado em amarrar alguém num poste ou em linchamentos populares porque “quem rouba merece apanhar” (mesmo não havendo evidências formais do crime, punido com excesso de força). Que, por coincidência, nunca acontece com gente branca de classe média, mesmo com aqueles malditos “direitos humanos que só existem para proteger bandido“. O mesmo bandido que você quer ver linchado pela população e espancado pela polícia. E ainda reclama dessa “violência de hoje em dia” enquanto distribui a culpa entre inúmeros agentes, nenhum dele sendo você. Que apanhou quando era criança e cresceu “normal”.

Você apanhou na escola e em casa mas tudo bem, porque isso “faz bem ao caráter” e “prepara para o mundo real“. Um mundo real onde o seu preconceito e seu desprezo por minorias fomenta a perpetuação da violência alimentada por um caráter defeituoso que crê que surrar seres humanos que ainda nem acabaram de crescer é perfeitamente justificável.

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[1] Tipo um carro nacional fabricado em 1990 ou um prato de arroz esquecido dentro duma gaveta.

[2] Quem sou eu para julgar?

[3] “Geni e o Zepelim”, por exemplo, composta em 1978 no auge da ditadura pelo artista mais reverenciado como intelectual, é apenas uma música rebuscada e tortuosa sobre estupro e linchamento movido a misoginia. O Rock das Aranhas também é daquela época. Bem como o é o clássico da literatura “superbacana superbacana superbacana Super-homem superflit supervinc superist superbacana, o espinafre, o biotônico, o comando do avião supersônico, do parque eletrônico, do poder atômico, do avanço econômico, a moeda número um do Tio Patinhas não é minha, um batalhão de cowboys barra a entrada da legião dos super-heróis”.

[4] Eu linkei uma passagem editada mas recomendo fortemente a leitura de todo o capítulo 2 do livro de Tiago. Você vai ter uma lição em falso moralismo e hipocrisia.

[5] Isso aí era uma frase minha e costumava passar pela minha boca sob a mínima provocação. Eu nunca pude ser considerado uma pessoa boa, mas antigamente eu era bem pior.

ATUALIZAÇÃO – Leiam os comentários. Eles são terrivelmente instrutivos.

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COMENTÁRIOS ORIGINAIS:

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    1. Paulo disse:

      Muitas palavras, pouco conteúdo.

        • Igor Santos disse:

          É sempre interessante conhecer alguém que tem medo de “muitas palavras”. Não costumo conviver com nenhuma assim, ainda bem.

    1. Pedro disse:

      Bom, colocar 3 links sobre abuso de religiosos contra crianças é ser desonesto. Nenhum professor, advogado, médico, chaveiro, bombeiro, eletricista, político, jardineiro, carroceiro, analista de sistema, psicólogo, pedreiro, etc estrupou ou molestou uma criança?? Molestadores existem em todos os lugares, em todas as profissões. Usar isto pra vangloriar um ateu é ser no mínimo desonesto.

      E outro ponto, você é contra uma palmada numa criança, mas é a favor do aborto?? Uai, você pode provar que um feto não é um ser vivo?? Ninguem pode provar isto. Não há provas. E na dúvida você quer matar um feto, mas é contra uma palmada, é contra amarrar um trombadinha num poste? Mas matar um feto pode? Não consegui entender isto.

      Abraços e boa sorte,

      Pedro

        • Igor Santos disse:

          Mais desonesto que tentar defender a honra dos pedófilos da sua religião tentando desviar a atenção do estupro para as várias citações dos estupros?
          Nenhum professor, advogado, médico, chaveiro, bombeiro, eletricista, político, jardineiro, carroceiro, analista de sistema, psicólogo, pedreiro e etc alega ser o arauto da retidão e defensor da moral. Prefiro me focar nos hipócritas que passam o dia impondo regras de comportamento sob ameaça de tortura eterna e a noite estuprando crianças. Melhor que tentar justificar os atos desses monstros perguntando se nenhum pedreiro molestou uma criança.
          Eu me vanglorio de ser ateu simplesmente pela distância que isso impõe entre mim e essa espécie de gente que você quer defender aqui.

          Você é a favor da palmada e do linchamento? Você acha que espancar um ser senciente – com sentimentos, emoções, sensações e memória – é o mesmo que eliminar um broto de uma ideia do que, talvez, poderia vir a ser uma criança? E ainda é a favor de amarrar um ser humano num poste para que ele possa ser espancado da forma mais humilhante possível?
          Você realmente é tão odioso e vil assim a ponto de achar isso? Sério?

          Defende pedófilos só porque eles são padres e concorda com abuso físico de menores e linchamento E ainda se diz religioso? Ainda bem que eu sou ateu e não me dou com gente da sua laia.

    1. Dani disse:

      Muitas palavras, muito conteúdo e um troll para coroar… texto muito bom, parabéns!

    1. Luis disse:

      Contradição em cima de contradição. Nunca vi alguém ser tão deturpado com as próprias ideias.
      Começa bem, de repente fica estranho. Então fica bem de novo, aí fica estranho.
      Exemplo disso:

      “Cresceu para ser um adulto normal, daqueles que defendem a diminuição da maioridade penal e a criminalização do aborto.”

      É contra a diminuição da maioridade penal mas é a favor do aborto? Qual a lógica? Por que você está certo e quem é contra você está errado?

      Eu sou a favor da diminuição da maioridade penal e também sou a favor do aborto (claro, com seus limites para ambos – tudo deve ser muito bem pensado e regularizado).

      Esse foi só UM exemplo entre todas as imposições de morais que você retrata, fazendo-se parecer o detentor dos bons costumes e do saber viver em sociedade.

      Eu também sou um adulto ateu, que não concordo que a ditadura foi boa, mas que as músicas da época eram sim de cunho muito mais cultural do que as midiáticas de hoje. Preciso mesmo citar o romantismo vazio do “sertanejo universitário” ou a promiscuidade do funk carioca?

      Enfim… opinião é opinião, né.

        • Igor Santos disse:

          Luis, que bom que você vive numa bolha e não conhece o tipo de pessoa ao qual me refiro no texto que, via de regra, é contra o aborto e a favor da diminuição da maioridade penal ao invés de uma reforma em todo o sistema de justiça. O primeiro sendo apenas um ataque misógino contra a liberdade física e pessoal da mulher e o segundo sendo movido por um sentimento de punição irrestrito (que é a base sobre a qual todo o texto se sustenta). Um modelo muito melhor e mais eficiente é o praticado em vários outros países, onde sequer existe conceito de maioridade penal; a punição sendo adequada ao crime, independente da idade.

          Realmente eu não sou quem melhor sabe viver em sociedade (prefiro, claro, culpar a sociedade e achar que eu que estou certo) mas eu entendo os erros que existem e sei entender as evidências que apontam para soluções. Não adianta reduzir a maioridade penal se o país continuar sofrendo do pior dos males; a impunidade.
          De que adianta prender um garoto de 12 anos que trabalha para o tráfico se o importador da cocaína é intocável? Por que criar uma manobra para prender crianças ao invés de, antes disso, começarmos a cumprir as leis que já temos e punir aqueles que merecem ser punidos na forma das regras já vigentes?
          Se o foco for criar novas leis ao invés de impor as já existentes vamos continuar do jeito que estamos, nada vai mudar. Não seja ingênuo.

          O problema de achar que a cultura de antigamente era melhor usando os exemplos mais cultos para comparar com os mais absurdos e ‘chiquitas bacanas’ de hoje em dia é apenas um erro lógico. A “cultura de antigamente” não era melhor, era apenas diferente e, o que resistiu até hoje foi só o filé. O mesmo vai acontecer daqui a trinta anos, quando só a nata da cultura atual continuará sendo apreciada.
          O que não se pode fazer (ou não se deve, por uma questão de consistência lógica) é comparar o que de melhor existiu com o que de pior existe. Não faz sentido comparar Construção com Lepo Lepo, e por vários motivos; um deles sendo que o gosto musical da população em massa mudou e outro deles sendo que o fato de você não gostar de uma coisa não a invalida por completo. Da mesma forma como você se sentiu ofendido quando eu disse que uma música de Chico Buarque deve ser evitada, milhões de pessoas achariam ruim você dizer que Beber, Cair e Levantar não é música. Você que está fazendo juízo de valor ao afirmar (coisa que eu não fiz) que a cultura atual é pior que a anterior. Não é você que decide o que é cultura ou o que é bom ou ruim.

          Naquela época existiam também o romantismo vazio da jovem guarda e a promiscuidade do funk soul. A diferença é que você – e muitos outros saudosistas – preferem esquecer dos exemplos ruins. Só isso.

    1. Santos disse:

      caramba.
      para o autor do texto parace que existe o bem e o mal.

      para o autor, quem acha que bullyng não existia, consequentemente – e automaticamente – também é a favor de punição de menores, homofóbico, machista, a favor da pena de morte, é malufista, e não acredita que o homem foi a lua.

      e outra.
      faltou um lado do pensamento:
      talvez a pessoa saiba qeu existia já antes o bullyng. A diferença é o exagero.
      Talvez a frase seja: no meu tempo, as pessoas não reclamavam tanto assim potando a culpa nos outros. Que é o que o vemos hoje em dia: pessoas querendo processar ou reclamar qualquer direito, só por alguém ter pisado sem querer no pé dela no metrô.

      O problema que qualquer coisa pode virar bullyng. Vivemos em uma sociedade pautada no exagero…. é muito difícil definir o que é exagero e o que não é, e geralmente a pessoa que julta o que é exagerado ou não no ato do outro, também está sendo exagerado (como o autor deste texto).

      no fim, cabe a justiça, por mais falha que seja, julgar os outros. E caad um viver nossa vida, sem criar estereótipos e generalizações dualista em nossas opniões.

        • Igor Santos disse:

          Praticamente a mesma resposta que dei acima. Você supor que eu estou generalizando (já que não disse isso em lugar algum do texto apesar de você dizer “para o autor”) a partir de um exemplo específico que tinha em mente é cometer precisamente o mesmo erro do qual me acusa. Quem está generalizando é você.

          Ao partir da premissa errada e manter o posicionamento errado ao longo do texto, sua percepção ficou enviesada e tudo passou a ser evidência da generalização que você supôs que eu fiz. Como quando você cita o exemplo do processo por pisada no pé e ignora as milhões de outras pisadas que ocorrem diária e impunemente. Quem está exagerando é você, pois está preferindo distorcer o mundo para que ele se pareça com uma imagem que você quer que ele tenha enquanto deixa de lado a esmagadora maioria dos fatos que não concordam com a sua suposição inicial.

          E, finalmente, pelo que você escreveu, posso supor que você acha que a culpa é da vítima, quando diz (sic): “no meu tempo, as pessoas não reclamavam tanto assim potando a culpa nos outros”. A culpa pelo bullying é dos outros. É do bully e dos acobertadores. A culpa pelo bullying nunca é da vítima.

    1. Igor Santos disse:

      AH! Agora eu finalmente entendi!
      Algumas pessoas leem o “você” no meu texto e acham, autocentrada e desempaticamente, que estou me referindo pessoalmente a elas. Uau!

      Eu pensava que eu tinha um senso de autoimportância inflado mas esse pessoal realmente está tentando o recorde mundial.
      Força aí, galera!

    1. Marina disse:

      Eu fui uma criança que apanhou. E hoje sou uma mãe que não bate. Gostei muito do seu texto. Muito mesmo. O pior da palmada é quando a criança acredita que mereceu. Conheço muitas, muitas pessoas mesmo, que justificam as palmadas q receberam porque “teve motivo”, logo, está tudo ok, cresci normal.
      O pior da palmada é fazer a pessoa sentir que mereceu. Isso é muito cruel. É abuso de poder. Talvez a naturalização da violência familiar tenha a ver com a naturalização da violência do estado contra os ditos “criminosos”. talvez.
      Me lembro de um dia, eu devia ter uns 9 anos. Estava num supermercado e uma mãe com dois filhos fazia compras. Um deles começou a “fazer birra” (ou, o que seria birra na concepção do meu pai-logo, motivo pra bater), e a mãe começou a conversar calmamente com ele. Fiquei muito impressionada, pensei, será que conversar vai resolver? Fiquei ali parada um tempão vendo a cena. E me lembro de ficar ainda mais impressionada quando a situação foi resolvida. E eu pensei, talvez pela primeira vez, que era possível que as coisas fossem resolvidas daquela forma. E que eu era muito capaz de entender as coisas. E que eu não precisaria ter apanhado.

      Com minha filha o diálogo funciona :) e ouço muita gente cobrando que, pelo menos, eu a coloque de castigo em alguns momentos. Que sou “mole demais”.
      Infelizmente já bati nela 2 vezes (uma palmada de cada vez) Me dou um desconto porque estava num momento muito difícil. Mas, isso não muda em nada o fato de que ela era uma pessoa totalmente dependente de mim, e que confia quase irrestritamente em mim, e que, no meu momento adoecido, essa confiança se quebrou.
      Ela sabe que não mereceu.
      É difícil percebermos, muitas vezes, que não estamos bem, que precisamos de ajuda. Mas, ao mesmo tempo, o filho está ali e não dá pra “pedir altas” de ser mãe. Mas, ao mesmo tempo, essa atitude continua sendo uma covardia. E não resolve nada. É o mais uma manifestação de impotência. E muitas vezes, as mães também precisariam de cuidado.
      Eu gosto de ser desafiada pela minha filha. Por me conhecer tão bem, ela é a pessoa mais capaz de expor minhas fraudes, e eu realmente mudo muito através desses retornos que ela me dá.
      Eu sou a estranha da família porque apostei que poderia ser diferente, mesmo sem saber se daria certo, mas paguei pra ver e tem sido bem gostoso. E nesse ponto, envelhecer é bom, porque a gente vai ficando mais doce.
      E sobre o bullying, propriamente,
      vejo, em alguns momentos, uma confusão em relação a isso. Crianças e adolescentes são cruéis mesmo. Numa relação entre iguais, que um avacalha com o outro,isso não bullying. Bullying é quando existe desigualdade de poder. O caso extremo é a pedofilia, principalmente de padres e parentes.
      Vejo,muitas vezes, as coisas caírem num pólo muito purista, em que qualquer coisa é bullying, negando a crueldade inerente a ser gente, gente em formação, que experimenta nas relações as formas possíveis de viver junto. As crianças precisam confiar nos adultos.
      Li em algum lugar, uma frase de não sei quem, que é mais ou menos assim, que a medida de saúde de uma sociedade pode ser o grau de acolhimento com que ela recebe os que chegam. Simples, né?

      Enfim, tô escrevendo demais. É que gostei muito do texto e ele me fez pensar muitas coisas.

      Um abraço,
      Marina

        • Igor Santos disse:

          Exato. Bullying não é o mesmo que dois iguais brincando “pesadamente”, mas alguém numa posição de poder se impondo sobre um menor – seja em tamanho, posição social ou idade. E o fazendo deliberada e constantemente. Especialmente, como você citou, fazendo a vítima achar que mereceu.

          Incentivar sua filha a contestar sua suposta autoridade (que dizem existir pelo simples fato de você ser mais velha, algo que nunca me desceu bem) é fazer dela uma pessoa mais esclarecida e confiante. Ao ver você aceitando as dúvidas dela, ela aprende a aceitar as suas.
          Parabéns, você me parece ser uma excelente mãe.

    1. Elizandro Rarvor disse:

      Excelente texto, parabéns.

      Porém, não é um texto simples de ser compreendido, especialmente para pessoas de mente tacanha.

      Eu sou um exemplo, apanhei muito na escola, e apanhava em casa por ter apanhado na escola. Quando cheguei no segundo grau, comecei a fazer musculação e judô, ai parti para a ignorância e qualquer mané que vinha tirar onda levava porrada, foi feio, cometi um ato de vingança contra meu agressor, mas me senti aliviado.

      Me tornei pai e nunca bati nos meus filhos e sempre ensinei a revidar qualquer agressão na escola e a nunca cometer bullying, “não faça com os outros o que você não quer para você.”

      Outro ponto, OFF-TOPIC, que é interessante, não sou ateu, nem praticante de religião alguma, mas acredito no tal ser superior, pois bem, um dos meus 3 filhos com 16 anos se disse ateu, e eu concordei.

      Tudo bem, a mãe dele fez ele fazer catequese e crisma e todas estas cerimonias católicas, para no fim ele se dizer ateu.

      Não sou ateu, mas respeito muito a opinião de quem o é.

      E como eu mesmo comprovei, não há o que fazer com personalidades tão diferentes.

      Levei meus filhos na igreja, minha mulher fazia questão de todos estarmos lá, nunca dei opinião contrária e respeitei esta fase da vida.

      No final??? Um filho continua indo na igreja o outro não vai mais mas continua rezando e sendo católico, o outro é ateu.

      Curioso que o ateu era o mais estudioso da catequese, tinha boas interpretações dos ensinamentos religiosos e ???? E nada, viu algo que o convenceu de algo totalmente oposto. Está se preparando para cursar engenharia.

      Ele me disse que não liga de ter que fazer aulas religiosas e etc, apenas o faz, bem feito, e segue a vida sem criar polêmicas, diz ele que não tem tempo para perder com discussão tola e sem sentido, por isso ele diz que respeita a opinião dos religiosos e sabe que ser ateu é sofrer mais preconceito do que se você for um estuprador, esquartejador, mas seguidor de Jesus, que encontrou a salvação na bíblia, até sair da cadeia, ai a salvação é perdida novamente.

      Desculpe o relato, apenas uma constatação.

    1. Danilo disse:

      Excelente texto. Um dos melhores textos que li sobre nossos autoproclamados “moralistas”. Pena que nem todos têm a capacidade de, ou, simplesmente, não querem, refletir sobre o conteúdo. Parabéns.

    1. Sil disse:

      Excelente texto!

      Principalmente a parte que fala sobre distorcer os fatos para encaixar a realidade no que se acredita que ela é (aqui no cel ainda não sei como selecionar um determinado trecho, copiar e colar, então tentei explicar o conteúdo do referido trecho… rsrs)
      É impressionante a capacidade que algumas pessoas têm de desprezar dados facilmente perceptíveis por qualquer um que não viva em marte e tentar invalidar um argumento com base no absurdo princípio de que falar de regra sem considerar a exceção é generalizar.

        • Igor Santos disse:

          Er.. não. Você que está vendo regra no que eu escrevi. E isso diz mais do seu modo de ver o mundo do que o meu texto.
          Você provavelmente se sentiu ofendida por ter lido o seu comportamento nas frases que escrevi e está vindo com esse “opa, peraí, não é assim” para tentar defender uma posição indefensável pelo simples fato de não ter capacidade de identificar uma falha grave no seu caráter ou coragem de admitir que está errada.

          Reiterando; é você que está supondo que eu afirmei que o texto é regra. A interpretação disso é sua, você que “leu entre as linhas” por causa do seu próprio viés.
          Mas eu sei que estou perdendo meu tempo, você não tem condições de entender algo tão simples.

    1. Sil disse:

      Só não entendi a sua definição da música da Geni. Essa música não é justamente uma crítica ao falso moralismo?

        • Igor Santos disse:

          Independentemente da “lição” da música (que não é exatamente explicitada, então só temos podemos supor que é uma versão irônica), é uma letra sobre estupro e linchamento.
          Os velhos hoje em dia querem proibir músicas com teor sexual consensual enquanto aplaudem e acham linda Geni ser estuprada e depois linchada.
          Esse sim é o verdadeiro falso moralismo.

  1. Curuma disse:

    Texto interessante, mas carece de melhores argumentos para defender a descriminalização do aborto de maneira tão efusiva. O parágrafo marcado pelo número [4] é brilhante e as referências foram muito bem marcadas. Parabéns.

    • Igor Santos disse:

      Do meu ponto de vista, a única defesa necessária é: dar à mulher direito ao seu próprio corpo. Existem incontáveis circunstâncias que não são consideradas quando homens escrevem uma lei genérica sobre algo do qual não entendem.
      Dizer “aborto é proibido e pronto!” é muito mais nocivo para todos os envolvidos, dos indivíduos à sociedade. Não há um só argumento favorável à criminalização que não seja baseado em preconceito e misoginia. Portanto, qualquer mínimo argumento contra, por mais fraco que seja, já é infinitamente melhor.

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