Quando eu estava na minha primeira faculdade, eu assinei uma revista de culinária. Sempre recebia correspondências da editora com a saudação “Cara amiga Igor Santos…” ou “Igor Santos, você que é uma mulher de bom gosto…”, o que nunca me incomodou muito (nunca soube dizer a quem esse preconceito era direcionado).

A boa e velha “tela de amianto”, agora com menor eficiência.
Anteontem, numa loja de produtos para restaurantes, vi um instrumento para banho-maria na boca do fogão (que nada mais é que um difusor de calor). Na caixa de tal aparelho está escrito, em letras grandes demais para a lateral do invólucro: “MULHER, ESTE PRODUTO FOI DESENVOLVIDO…” etc, etc.
O primeiro exemplo (da editora) é mais preguiça misturada com um pouco de burrice. Nada que quinze minutos revisando o programa de mala direta não resolvesse. Já este segundo é ofensivo. Mas, ainda assim, não sei a quem ofende mais, pois ao mesmo tempo perpetua o preconceito do “lugar de mulher é na cozinha, logo, todo utensílio culinário deve ser nominalmente direcionado às mulheres” e subestima a capacidade masculina de cozinhar um pudim ou um suflê (aliás, quem acha que esse aparelho realmente funciona como um banho-maria não poderá jamais ser subestimado, já que não existe um nível de estima menor que o mínimo).
Agora, ontem, numa loja de panelas, o limite foi atingido.
Enquanto tentava avaliar o calor específico de um alguidar e sua provável performance durante a preparação de um guizado, eu estava sendo escoltado por uma funcionária que fazia questão de recitar cada um dos preços escritos nas etiquetas para as quais eu direcionava o olhar. Até aí, tudo bem. Anos tocando músicas que detesto me ensinaram a bloquear sons indesejáveis (isso e a inevitável interação com os ^astros^ do rock potiguar durante a criação dos set lists me adestraram a sorrir polidamente enquanto ignoro boquirrotos pernósticos). Eu consigo induzir uma agnosia auditiva verbal convincentemente.
O problema mesmo foi que, ao passear pelo mar rio riacho maceió poça de papeiros em ágata, alças em baquelite, tampas em flandre, colheres em ferpas e decoração em teias de aranha, o sujeito – que suponho ser o dono – se levantou do seu tamborete de onde navegava pelo Orkut enquanto ao mesmo tempo apontava em minha direção generalizada, murmurando algo que, lentamente desagnosiado, percebi ser uma pergunta: “Você já conhece o DESCASCADOR DE BATATAS?”

Isso só funciona adequadamente enquanto está escorregando da superfície-alvo e se movendo a uma velocidade irresistível em direção ao seu polegar.
Além de ser um dos aparelhos mais perigosamente inúteis já empreendidos, é também, surpreendentemente, um dos mais antigos. Mas essa óbvia falta de respeito com a minha cultura geral e histórica também não foi O problema. O que aconteceu em seguida, sim.
Ele, já finalmente de pé e andando numa reta que compreendia os pontos X(eu) e Y(descascador-de-batatas), soltou: “Isso é uma coisa que toda dona-de-casa [tapinha nas minhas costas para pontuar a frase e identificar o objeto da oração] tem que ter!”
Minha resposta, caso eu tivesse me dado ao trabalho de abrir minha boca, teria sido algo como: “Em primeiro lugar, caso minha falta de peito, excesso de barba e a vasta área exposta no topo da minha cabeça não sejam pistas suficientes, eu não sou ‘dona’ de coisa alguma. Sua percepção preta-e-branca das conformidades socioculturais é tão forte assim que qualquer bípede vivíparo que adentra seu estabelecimento é imediatamente rotulado como feminino? É descendo para o nível mais baixo de preconcepções a única maneira com a qual você lida com a dissonância cognitiva, aparentemente insuportável, de ver alguém que é claramente homem procurando uma panela? Você é realmente cognitivamente incapaz de se dirigir a alguém interessado em implementos culinários usando um pronome masculino? E, em segundo lugar e mais importante; NINGUÉM!, absolutamente ninguém precisa ter um descascador de batatas!”


Eu adoro meu descascador…
Eu adoro as cascas das minhas batatas. Menos cozidas, mas não preciso de descascador para isso.
Eu também.
Caro Igor, parece que as panelas são feitas para as mulheres assim como os carros para os homens. Você lembra de algum comercial onde a mulher esteja no banco do motorista? rssss Lembrei agora de um bem legal do Fusion, o homem era o motorista na versão feminina. Parabéns pelo blog, vou ficar “de butuca” nele.