Vinte e poucos anos; dirige um carro compacto (talvez um Fiat Palio duas portas?); baterista (como evidenciado pelo par de baquetas sempre presente no banco do passageiro); estudante, acaba de passar num concurso público; longos cabelos negros desgrenhados contrastando com a pele branca de traços delicados; olhos distantes, dos loucos que planejam. De repente pensa ser uma excelente ideia enviar pedacinhos do seu amigo como prova do sequestro.
Dois amigos.
Tudo começou quando, ao passar no concurso, seu amigo que não passou reclama, se queixando que sua mãe não lhe havia pago um curso preparatório decente. Caso contrário, sem dúvida passaria e estariam os dois hoje como futuros funcionários do Estado.
“Tive uma ideia! Vamos simular um sequestro, aí pedimos dinheiro ao seu pai!”
Não que isso fosse remediar a situação concursal. Nada o faria. Seria apenas pouco mais que uma mesquinha vingança de dois pós-adolescentes contra o que ambos pensavam ser o “Sistema”, representados pelos pais daquele menos aplicado aos estudos.
Tudo acordado mas ainda sem plano definido, o sequestrado é então surpreendentemente subjugado por uma força totalmente inesperada, amordaçado, amarrado, encapuzado e colocado no banco de trás do carro. Pedaços pequenos de sua carne passam então a ser cortados ao longo de todo o seu corpo.
Os cubinhos de carne humana são então enviados ao pai da vítima que, devido à violência extrema improvisado sem seu consentimento e grande perda de sangue, está agora em choque. Mal se move e pouco sente, apenas o frio no coração o aflige enquanto é levado ao hospital no Palio verde escuro.
Contanto, devido à emocionalidade do plano, as circunstâncias não se desenvolvem como esperadas. O trânsito está ruim e o hospital ainda muito longe.
Não é nem o trânsito em si, é a cidade se comportando de forma estranha.
O horizonte era uma cortina azulada de precipitação vindoura mas nunca chegada.
Do ponto de vista da direção, a loucura do ato somada ao desespero da lentidão era multiplicada pela pouca visibilidade, resultando em atos cada vez mais intensos e menos justificáveis.
Como forma de tentar dissipar um pouco a tensão, as baquetas no banco ao lado são agarradas e rufadas em todas as superfícies (direita, direita, esquerda, esquerda, direita, direita, esquerda, esquerda…); volante, marcha, encosto de cabeça, corpo convulsionante do amigo, vidro da janela, teto do carro. Tudo isso enquanto roda sobre o banco, dobrando as pernas ao virar-se para trás.
O tactac constante (direita, direita, esquerda, esquerda..) mudando apenas de timbre, sempre em ritmo, sublinhando as palavras “estamos indo para o hospital, estamos indo para o hospital”, proferidas incessantemente (por qual motivo? Para tentar acalmar-se? Acalmar o amigo? Informar o espectador?).
tactac tactac tactac
Voltando-se para a frente, acelera. Não importa mais a chuva, o trânsito, as circunstâncias agora são desprezíveis. O mantra (“estamos indo para o hospital, estamos indo para o hospital”) de tão repetido e marcado (tactac tactac) torna-se verdade. Eles agora estão se encaminhando para o hospital. Não importa o resto do mundo.

Cruzamentos são cortados; sinais são ignorados, mesmo porque eram invisíveis até o momento em que são passados; cortinas cinza-azuladas são transpostas, dando lugar a um ambiente ainda mais úmido e cinzento; acidentes iminentes continuam no ramo das possibilidades; pais aflitos por desconhecer o paradeiro do filho não sabem que dele são provenientes os pedaços ensanguentados de carne à sua frente, numa caixa sem marcas e sem endereço, um espetáculo chocante e de péssimo gosto; a velocidade aumenta, o mantra aumenta, o amigo sangra e lentamente encontra a morte.
Enquanto isso, naquela atmosfera azulada de uma chuva que nunca vem, à espera de uma batida mortal que nunca acontece, a sequestradora, a motorista do Fiat escuro, a futura funcionária pública, sua amiga, a sua algoz que possessa da súbita loucura violenta que a fez tirar pedaços de sua carne e enviá-las a completos desconhecidos, chora. Uma lamúria distante de uma lástima reservada aos loucos que não sabem porque choram, apenas se lamentam do fato de precisarem chorar com tamanha urgência.
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O descrito acima é a melhor descrição que consegui fazer de um sonho muito vívido que tive na manhã do dia oito de agosto. Estranhamente, consegui não me esquecer dos mais intrincados detalhes durante o dia.
