Ontem eu fui ao supermercado adquirir alguns itens de reposição gastronomo-enológica que me estavam fazendo falta em casa e, quando já esperando minha vez no caixa, me envolvi numa situação um tanto quanto bizarra mas que já se tornou tão comum que não nos preocupamos mais em ponderar sobre ela.
O estabelecimento que frequento tem semirretângulos de metal cilíndrico dividindo pares de baias para evitar que carrinhos de clientes sendo atendidos em um caixa invadam o espaço destinado ao escaneamento e pagamento dos itens de outro consumidor que esteja tendo seus produtos somados no mesmo momento.
Essa barreira é um local ideal, tanto em altura quanto em área de conforto, para se escorar enquanto se espera o fim do processo somatório. E é exatamente isso que faço após esvaziar meu carrinho sobre a esteira rolante do caixa.
Supostamente, outras pessoas gostam de fazer a mesma coisa e assim o fazem. A moldura metálica aparenta ser forte o suficiente para aguentar o cotovelo de um cliente por alguns poucos minutos.
E foi, talvez por motivo semelhante, que se deu o ocorrido adiante descrito.
Imaginem a cena: estava eu, escoliosicamente repousando sobre a barra divisória, no estado de estupor característico criado pelo hipnótico apitar do leitor ótico de preços, quando um colega freguês espontaneamente fez o mesmo e, acidentalmente, resvalou o seu braço no meu.
Imediatamente, ao sentir que cometia o inafiançável e hediondo crime de invasão de espaço alheio, rapidamente se contorceu para voltar ao estado ereto característico da nossa espécie e, com um tom de genuína sinceridade, desejou meu perdão pelo ocorrido.
Eu indiquei algumas vezes para meus leitores que sou ligeiramente misantropo porém devo confessar que, após alguns segundos de deliberação, o pedido de desculpas foi o que mais me incomodou na cena acima relatada.
Eu entendo que um sujeito não queira esquentar seu ombro no atrito gerado contra o meu tríceps e se mova para retificar a situação o quanto antes, mas desde quando passou a ser necessária a moção oficial de clemência?
A partir de que momento em nossa evolução social foi convencionado que o ato de simples contato físico não-intencional com outro ser humano carece de justificativa verbal e roga indulgência da parte afetada?
Como certifiquei no início deste texto, essa é uma situação comum e que me faz questionar até que ponto poderemos nos distanciar uns dos outros.
Eu entendo que existem pessoas que realmente têm fobia de contato. No entanto, os antropofóbicos costumam não sair de casa. E contato involuntário com um sofredor de tal fobia sucita uma resposta ativa de repulsa e medo, dispensando ação preambulada.
E tão forte é a convenção que até eu, socialmente desprendido como sou, preciso resistir fortemente ao ímpeto de me desculpar por roçar casualmente em um companheiro cromossomático.
O que me deixa ligeiramente triste e temeroso pelo futuro gregário da nossa subespécie.
Não gostaria de supor que isso acontece só comigo, mas seria esse o caso? Estariam meu tamanho e trejeitos causando tal ação?
Isso acontece com vocês também?

Aqui as pessoas pedem “PERDÃO” quando esbarram claramente sem querer, noutra pessoa. No começo eu achava um exagero, mas aderi. E ainda fico brava se alguém não pede meu “perdão” quando isso acontece. Humanos, humanos… tsc, tsc, tsc….
Concordo: Humanos, humanos… tsc, tsc, tsc…
Imagino que tenha algo a ver com leis trabalhistas sobre assédio sexual.
Deveriam criar tais divisórias pessoais e portáteis.
Melhor pedir desculpas… vai que o maluco resolve tacar uma lâmpada fluorescente na sua cara caso você não faça isso?
É melhor ouvir “PERDÃO” do que “GOZEI”…