Eu fui ao SWU (que, ao contrário do que eles afirmam, começa com um S e não com um U) e me arrependi profundamente. Eis aqui os motivos:
- Falta de comunicação interna: como eu pude comprovar em determinado momento, a mesma pergunta feita a cinco diferentes pessoas (não qualquer pessoa que ia passando, mas sempre umas que estivessem usando a camiseta da equipe) receberia cinco diferentes respostas, todas auto-contraditórias. Por exemplo, a simples “onde fica a tenda de cadastramento para o fórum?” foi retrucada com “lá na frente”, “lá atrás”, “aqui mesmo”, “tenda de quê?” e “é fácil de achar, é só perguntar”. Apenas a primeira estava correta, mas poderia ter utilizado um advérbio de intensidade para aumentar a veracidade da afirmação, do modo “é tão mais lá para frente que você nem faz ideia!”.
No local onde eu ouvi o “é aqui mesmo” (e não era ali, por um erro de um quilômetro e meio mais ou menos), também ouvi o seguinte diálogo:
- Seu rádio está funcionando?
- Não, ele está mudo desde que eu cheguei. Eu estou falando com fulana pelo celular mesmo, é o único jeito.
Isso foi logo ao chegar, o que já deveria ter me avisado do nível apocalíptico de desorganização estrutural do evento. Não existia comunicação interna porque os rádios, uma tecnologia velha o suficiente para ter seu dia próprio no calendário, não estavam, aparentemente, ligados. Pois se estivessem, estariam funcionando.
Ao chegar, após horas de agonia (leia mais na seção transporte), finalmente na tal tenda de cadastramento, sou recebido por uma simpática senhorinha (devo dizer que apesar da incrível falta de informações, ninguém chegou a ser pessoalmente antipático) que me diz: “Olha só, amanhã tem que chegar mais cedo, tá? O cadastramento é só até meio-dia, mas hoje a gente estendeu o horário (já era uma e quinze da tarde) por causa da desorganização que está aqui.”
A simpatia só aumentou quando ela não tentou mentir nefastamente na minha cara inventando alguma desculpa do tipo “vi você chegando esbaforido e resolvi projetar a bondade do meu coração a você”. Ponto para a menina.
- Transporte: absolutamente inexistente. Eu (e vários outro, então se tiver sido falta de capacidade de interpretação, não fui o único tapado a cair nessa) fui levado a crer que a organização do festival disponibilizaria ônibus, de São Paulo para Itu, para o transporte das dezenas de milhares de visitantes, a cada quinze minutos. Ledo engano.
Havia sim ônibus, mas de linha, que leva e traz passageiros para Itu durante todo o ano (independente da quantidade de pseudo-hippies interessados em transportar milhares de toneladas de equipamento ao redor do mundo em caminhões a diesel e aviões a gasolina, para cobrar caríssimo de vários milhares de fãs que também precisam se deslocar até o local em fornalhas de hidrocarbonetos pré-fossilizados, para lhes dizer para parar de poluir o mundo), de hora em hora.
Uma quantidade semelhante de pessoas também “se enganou” (não quero explicitamente dizer que fomos enganados para evitar processos de uma organização irascível) achando que haveria como voltar para São Paulo após os shows sem a necessidade de organizarem transporte particular. Os circulares que supostamente foram prometidos existiam tanto quanto os ônibus-a-quarto-de-hora saindo da capital.
Na ida, eu peguei uma fila de uma hora e meia na rodoviária de Barra Funda que me fez perder a condução das nove e quinze por causa de uma fila que fazia duas curvas de noventa graus para acomodar o inchaço imprevisto pela empresa transportadora. Já que metade das pessoas da fila estavam indo especificamente para o festival, por que não uma fila exclusiva?
Embarquei então no ônibus das dez e quinze já prevendo atraso, pois haviam me dito que a viagem dura geralmente duas horas. Me consolei pensando que se perdesse o cadastramento e o ingresso, poderia voltar para Itu e visitar o maior orelhão do mundo. Consolo este que não entraria para o Livro dos Recordes (felizmente?).
Exatamente às onze e meia, o carro para em frente à entrada para a Granja Maeda, onde se daria o evento, e o motorista anunciou que dali para a frente ainda seria uma caminhada de uns três quilômetros para os que quisessem ali descer. Caso contrário, um ônibus circular sairia da rodoviária “a cada dez minutos” (palavras do motorista). Como não quis andar (estava sentindo os indícios de assaduras entrecoxais) escolhi a segunda opção, achando que daria tempo.
Mais um engano. Dali até a rodoviária ainda rodamos por mais quarenta minutos. Ou seja, por mais rápido que o circular saísse, ainda demoraria quase uma hora a mais para refazer o caminho. Por que não então deixar o circular na frente do local, apenas percorrendo esses tais três quilômetros para frente e para trás, ao invés de forçar o consumo extra de uma ida-e-volta completa até a rodoviária de Itu?
Sustentabilidade? Só se eu desconhecer um dos sinônimos de “demagogia”.

Eu gosto dessa atenção aos detalhes. Nada melhor que um papel escrito com caneta e colado com fita para mostrar oficialidade.
O “a cada dez minutos” do motorista era, na verdade, “os três únicos ônibus disponíveis sairão ao mesmo tempo apenas quando todos estiverem cheios”, o que felizmente não demorou tanto.
Ao chegar na entrada, notei que nada além do poeira onipresente se movia. A fila de carros, vans e ônibus era imensa como a capacidade de maldade humana e imóvel como um cadáver abandonado num matagal (o que não seria uma má analogia para o SWU como um todo).
No entanto, logo após a entrada do estacionamento não havia um carro sequer. Toda a confusão incapacitante estava localizada ali, na imensa área sem porta que estava sendo denominada “estacionamento”. O motivo desse atravancamento eu não sei dizer, mas eu ouvia vários rapazotes com camisetas do festival gritando para lá e para cá que “O PALIO ESTÁ LIBERADO”. Não posso confirmar o significado da frase porém posso afirmar que a intensidade das vozes não era diretamente proporcional à organização da entrada do estacionamento, o que me fez ter certa pena dos motoristas que gastaram cinquenta reais extras para ter a “comodidade” de estacionar perto da porta (apesar desta se encontrar ainda a uns oitocentos metros dali).
No final do dia, calculando quanto tempo demoraria para voltar ainda em tempo de pegar o metrô, sai ainda durante a apresentação da banda Mars Volta (penúltima da primeira noite), parando nas catracas para me certificar de que já havia ônibus voltando (“sim, faz tempo já”, me disse uma das catraquistas), apenas para encontrar uma fila imensa de pessoas cabisbaixas por não terem como sair daquele deserto organizacional. Perguntei a um rapaz ainda sem barba mas já com a camisa da organização onde diabos estavam os ônibus e tudo que ele tinha para me dizer era: “Ainda não chegou nenhum (em direta contradição à informação da catraquista) mas aquela fila ali tá indo para Itu.”
Como eu sou muito cético não quis acreditar que a fila levitaria até a cidade mais próxima e indaguei como exatamente a “fila iria para Itu”.
- Num ônibus.
- Que ônibus? Não tem ônibus algum e você acabou de me dizer que ainda não apareceu ônibus algum.
- Mas aquela fila está indo para Itu.
- Como exatamente?
- Num ônibus.
(bis)
Após uns dez minutos dessa mesma conversa cíclica, procurei outro imberbe e pedi para ser direcionado a alguém que realmente fosse responsável por alguma coisa para que eu pudesse pessoalmente falar com uma pessoa que pudesse ou me dar uma resposta direta do paradeiro dos ônibus ou ser prontamente por mim esganado para dar vazão à minha frustração. Inutilmente, pois o rapaz não queria se complicar com seus superiores.
Mas eis que enfim aparece uma condução. Infelizmente ela estava indo levar duas pessoas ao cartódromo.
Ao notar isso, a turba que havia se formado ao redor do carro começou a adentrar o veículo exigindo que todos fossem levados à rodoviária, pois como eu havia assertado, ou saímos dali naquele momento ou todos perderíamos o horário do metrô na capital.
Enfim, o garoto conseguiu atrair a atenção de alguém com uma plaqueta (que denota autoridade nessas circunstâncias) que convenceu o motorista a nos levar aonde queríamos ir.
Às dez e meia da noite, chegando em Itu mais uma vez, corri para o guichê de passagens onde um velhinho estava acabando de anotar seus palpites do Bicho para o dia seguinte e perguntei que horas poderia sair dali.
- Ônibus para São Paulo só amanhã de manhã.
- Como assim? E os ônibus do festival?
- Fest quem?
- O SWU não tinha uns ônibus saindo daqui até não-sei-que-horas da madrugada?
- Não tem mais ônibus saindo daqui desta rodoviária até amanhã de manhã. Não sei do que você está falando.
Nessa noite, várias pessoas dormiram na rodoviária de Itu. Então não fui o único enganado.
Eu posso ser otário, mas não sou imbecil. Procurei três pessoas que como eu não queriam dormir na rua de uma cidade gelada e desconhecida e negociamos um táxi.
Após duas horas (de emoção num táxi aparentemente irregular com um taxista do interior que literalmente se tremia de medo por estar na capital e que não conhecia o nome de uma só rua da maior cidade do país apesar de afirmar que ia para lá quase todo dia e que, no fim da corrida, pagou do próprio dinheiro para que outro táxi me levasse até onde eu precisava ir, já que ele não sabia como e para que pudesse voltar o quanto antes para o aconchego da sua cidadezinha ainda ileso), cheguei na casa onde estava hospedado e tentei relaxar.
O que só se deu quando eu resolvi não voltar no dia seguinte para o SWU.
- Banheiros químicos: não exatamente “ecologicamente sustentável”. Já que a organização não se preocupou em fornecer papel higiênico, pias ou sequer higienização dos cubículos (que ao fim do dia funcionavam melhor como câmaras de gás), por que não manter a proposta do festival e forrar o fundo de cada reservado com serragem? O cheiro continuaria o mesmo no fim do dia mas pelo menos o resíduo semi-sólido poderia ser utilizado em fábricas de amônia ou como acidificante de solos urinariamente empobrecidos.
Ou talvez até algum dos “artistas” que contribuiu com as “obras de arte” espalhadas pelo local, quem sabe, não se interessaria em fazer uma estátua com a serragem ligeiramente morna? Porque eu aprendi no SWU que empilhar lixo tem o mesmo valor de reciclá-lo.
Eu sofri de um episódio revolucionário no ponto final do meu sistema digestivo e precisei usar os banheiros, digamos, a cada hora e meia. Eu não sei exatamente porquê todos os cubículos estavam tão molhados e com cheiro de calçada adjacente à rua por onde passa um bloco carnavalesco, porque a lama na entrada do banheiro masculino era prova de que nenhum dos cavalheiros estava se preocupando em usar locais com porta para aliviar o peso da cerveja. Para a minha sorte, exemplares da revista Rolling Stones, com suas páginas pouco absorventes, estavam sendo distribuídos gratuitamente, bem como folhetos do Greenpeace, feitos de um papel ligeiramente mais macio que o panfleto terrorista comum.
Sou engenheiro, eu sei improvisar.
- Som: o único aspecto bom do som do primeiro dia foi a ação de limpeza nasal causada pelos graves incrivelmente potentes que destruíram e descolaram todas as minhas catotas antes que eu precisasse retirá-las manualmente.
Quando a banda Macaco Bong foi se apresentar, eu achei que meu humor melhoraria, mas apenas me enganei ainda novamente. Apesar de ser um trio de rock instrumental, a guitarra parecia não estar ligada. Mas por quê iríamos querer ouvir guitarra se estávamos tão claramente ouvindo o som de bumbo mais alto do mundo? E nada melhor que ouvir todos os shows como PUF PUF PUPUF PUF o tempo todo, sem direitos a vocais, guitarras e/ou o resto da bateria. Bumbo até o fim dos tempos!
Ridículo. O som estava simplesmente ridículo. Menos na tenda (tudo lá era “tenda”, que é uma palavra bucólica que remete aos índios e sua política de não-agressão à Natureza) das bandas alternativas. Ali o som era perfeito. No meu entendimento de Engenheiro de Áudio e defensor da democracia, os operadores de mesa deveriam ter trocado de posição para agradar a maioria que foi lá para ver as bandas grandes, como Rage Against the Machine, e não bandas com nomes como Cidadão Instigado (que por sinal, tirando o cantor, é uma banda excelente).
- Insustentabilidade: como eu já insinuei, o local estava repleto de lixo empilhado em formas de “obras de arte” e cheio de ideias inovadoras como transformar papel de confeito em vestidos que nunca serão utilizados, apenas aumentando o desperdício da energia usada na fabricação da vestimenta. Isso tudo passa por “sustentável”, não é?
Ah, mas tinha uma roda-gigante que claramente não estava sendo movida pelos ciclistas ao lado. Sustentabilidade no ápice de seu significado!
Quatro bicicletinhas sendo movidas por quatro gordos e seis gordas que se revezavam em pedalar o mais lentamente possível para que seus corações repletos de gordura industrializada energeticamente caríssima não rasgassem ao meio fazendo girar uma roda-gigante completamente iluminada por lâmpadas fluorescentes de reator (que são ralos energéticos transformando a maior parte da eletricidade em calor e não em luz) que precisava parar e começar a rodar novamente a cada banquinho elevado para que um novo casal-verde pudesse passar cinco minutos nesse puxa-encolhe de desperdício de eletricidade sonhando em como o mundo será um lugar melhor para seus filhos-verdes? Eu acho que não.
Se o diabo da roda estivesse girando sem parar eu confiaria. Mas um bicho daquele tamanho tem uma inércia muito grande e precisa de muita energia para começar a rodar novamente depois de parado.
Eu já falei que todo o festival (possivelmente inclusive a roda-gigante) estava sendo iluminado e energizado por um gerador movido a óleo diesel? Não, né? Mas deve ter saído nas reportagens da Globo (patrocinadora do festival) a coluna de fumaça preta de óleo mal queimado ascendendo aos céus ao lado dos banheiros femininos, né?
Não? Sério?
Não foi pior porque, tirando as passagens de ônibus e o táxi de emergência que precisei tomar, não gastei com ingresso, pois fui convidado do fórum que não pude assistir, passagens aéreas, pois utilizei milhas acumuladas, nem com hospedagem, já que fiquei na casa de um amigo meu. Porém este sofreu sim um prejuízo ao ter sua carteira sorrateiramente retirada de seu bolso durante um dos shows como parte de um sub-evento bem mais organizado que o festival em si; um arrastão.
Na segunda noite do evento, centenas de pessoas tiveram dinheiro e celulares subtraídos de suas listas de posses pessoais por um grupo de indivíduos bem mais profissionais no seu lido que os responsáveis pelo SWU. Ao que eu indago: bandido paga para entrar ou eles têm acesso a uma entrada exclusiva?

Eu avisei…
belo resumo. faltou dizer que o fórum era inacessível. e quanto custava mesmo pra acampar?
[...] “O mais longo (e insustentável) dos dias” | Igor Santos [...]
Puta que pariu…desde a primeira vez que ouvi falar neste “festival” eu achei que ia ser uma besteira pseudo-ambientalista, mas não achei que ia ser uma cagada TÃO grande.
Uhauahhahaha.
Pelo menos comeu quibe michuí, hehe
Abraço
Minha ida a São Paulo só foi ruim nesse dia. Os outros foram excelentes.
=¦¤þ
Pelo mudo de reclamações q ando lendo, acho q tive muita sorte, ou não fui no mesmo festival. Claro, não acreditei em nda desse negocio pseudoambientalista, nunca tive a ilusão q seria um evento sustentável, a começar pelos preços dos ingressos.
Por isso fui no espírito de que seria um festival de rock como qq outro.
Eu fui só no ultimo dia e não posso dizer q me arrependi, e nem me senti enganada. Não tive problemas de locomoção, não peguei fila pra qse nda, os banheiros eram podres como em todos os eventos desse porte q já fui. Qto aos problemas técnicos isso sim, tenho muito a reclamar, principalmente no show do QOSA que foi a causa de eu ter ido ao SWU, e fiquei qse uma hora em pé sendo amassada enquanto esperava.
Acho q era mesmo de se esperar q um evento dessa magnitude não iria conseguir cumprir a proposta, tanto pq acho q esse realmente não era o objetivo dos organiadores e patrocinadores no final das contas, e outra pq muita gente lá não tava nem aí pra sustentabilidade, diria mais, tinha gente lá q nem deve saber o que é isso, queriam mesmo era ir ver os shows.
Digo isso pq o q vi de gente jogando lixo no chão com a lata ao lado, gente fumando e jogando bituca de cigarro acesa na grama seca, o pessoal q só foi pra beber e ficar doidão, eu inclusive em algumas ocasiões fiquei “chapada” só de respirar o ar perto de mim, só pra citar algumas coisas que vi.
Depois disso td, só espero q essas reclamações sirvam pro Sr. Eduardo Fischer ou fazer algo realmente sério e organizado pra poder usar a palavra sustentabilidade, ou assumir de vez q quer fazer apenas um festival de rock e ganhar dinheiro.
[...] This post was mentioned on Twitter by Renan Picoreti, Alaor C Coutinho and Bê Neviani, Maria Elisa Cardoso. Maria Elisa Cardoso said: RT @renanpicoreti: RT @uoleo: O mais longo (e insustentável) dos dias [uôleo] – http://wp.me/peiG4-Dx // Sobre o SWU. Impagável! [...]
cara, o seu relato é MUITO bom…
se te consola, daqui a alguns anos vamos rir disso…
ou… ou… ou o fischer vai rir da nossa cara. mas, enfim: sigamos!
Pior é o primeiro comentário: Eu avisei. Manda ele se foder por mim.
Done.
A Thanuci mandou uma bomba de post lá no Radar Verde… Vale a pena dar uma olhadela… Só não ponho o link pra não correr o risco de cair na caixa de spam =)
[...] http://uoleo.wordpress.com/2010/10/13/o-mais-longo-e-insustentavel-dos-dias/ [...]
Igor, seu texto foi dos mais engraçados e bens escritos que li sobre o SWU. O evento foi terrível, mas o seu relato foi incrivelmente gostoso de ler. Parabéns, tu escreves bem demais!
Brilhante.
[...] http://uoleo.wordpress.com/2010/10/13/o-mais-longo-e-insustentavel-dos-dias/ [...]