Quando eu namorei pela primeira vez, só precisei pedir a menina em namoro e esperar que a notícia se espalhasse (o que não demorava muito na Natal daquela época) e estávamos “oficialmente namorando”.
Havia uma única etapa: o pedido. Este era tanto o começo quanto o fim do processo, numa época mais simples quando minha esfera social se resumia àqueles com quem eu estudava e meu vizinhos de rua e a pessoa que eu conhecia que estava mais longe de mim era um tio meu que morava em Salvador.
Hoje em dia, quando relacionamentos (até onde a definição, devidamente esticada ao máximo, se aplique) ocorrem mais in silica que in loco e é um tanto quanto difícil manter um diálogo fluindo com alguém cuja cara (ao contrário de seu avatar) realmente mexe em sincronia com as palavras, namoros se tornaram mais, digamos, complexos. Não necessariamente mais difíceis, apenas mais intrincados, como nó de gravata de rico.
Eu não acho que o pedido formal continue sendo necessário pois existe agora uma pré-etapa primária: a “ficada”, onde não é preciso sequer palavras; apenas pouca luz e alguma quantidade de álcool.
Em seguida vem a segunda ficada (já um pouco mais suportável num ambiente com densidade luminosa ligeiramente maior), a terceira, quarta, e assim por diante, de modo que a linha divisória entre o solteirismo e o comprometimento começa a sair de foco até que chega-se numa zona em que não é mais tão confortável ser visto em público de beiços dados com outra pessoa.
Daí em diante, os amigos já começam a perguntar por X (onde X é a pessoa com quem você está “ficando direto”, ainda outra fase no jogo do compromisso duradouro) e os dois já são considerados por alguns como um casal.
Existe uma certa disputa entre os estudiosos da área, mas eu considero a próxima etapa como aquela onde uma terceira pessoa que conhece os dois pergunta (com um tom mais de afirmação do que de dúvida) se eles estão namorando mesmo (ao contrário da outra corrente de pensamento que afirma que a transição ocorre no momento em que aquela amiga sem-noção pede para um declarar seu amor pelo outro fazendo algo estúpido, como indo buscar uma cerveja para ela).
Em seguida, no nosso mundo atual, começa-se a namorar virtualmente (que por algum motivo possui uma seriedade maior que o namoro real), declarando publicamente o fato em alguma rede social por meio de uma mudança de condição no campo de situação romântica correspondente, de “solteiro” para “comprometido” ou algo equivalente.
A partir daí, o namoro é semi-sério, pois está na Internet e o mundo todo tem acesso a essa informação privilegiada.
O passo seguinte é conhecer a família. O que para mim é bastante estranho, pois nos anos 80 em Natal só haviam mil e seiscentos habitantes divididos entre seis ou sete famílias (havia um certo desentendimento entre os Alves de Souza e os Alvez de Sousa) e todos se conheciam previamente. Mas tudo bem, eu tenho que me deixar levar pelos tempos modernos e admitir que uma das etapas mais definitivas na jornada namorática moderna é ficar extremamente constrangido na frente dos pais da pessoa com quem se pretende passar as próximas semanas de chamego.
No entanto, o que consolida de vez a relação é a troca de presentes em datas especiais, por dois motivos: primeiro, não é com qualquer um que se escolhe desperdiçar um 7 de Setembro ou uma Quarta-Feira de Cinzas. Se os dois estão juntos naquele dia especialmente patriótico ou profano é porque, muito provavelmente, outras opções melhores não estavam disponíveis (para ambos, o que sugere uma certa sincronicidade dolosa).
Em segundo lugar (como eu infelizmente já pude comprovar mais vezes do que gostaria de admitir), pessoas romanticamente envolvidas só presenteiam com o exclusivo intuito de receber uma lembrancinha equivalente em retorno. Logo, para que suposição de tal magnitude seja válida, é necessário que o mútuo acordo silencioso de quiproquó esteja bem firmado e, para evitar confusões de regalos espontâneos não sendo imediatamente repostos com outro de valor semelhante, escolhe-se geralmente datas comercialmente aceitáveis e incentivadas para a troca dos mimos.
Tanto que o melhor dia do ano para o comércio em geral (25 de dezembro) é o monetariamente já bem estabelecido feriado pagão de adoração ao vermelho e verde celebrado em shopping centers ao redor do planeta que infelizmente suplantou em importância a mais tradicional (mas já bastante ultrapassada) festa para comemorar o solstício (de inverno lá em cima, de verão aqui embaixo, equatorialmente falando), e que, coincidentemente, marca também o aniversário daquele, cujo trabalho e determinação (sempre voltado para o bem da humanidade) nos tirou das trevas da ignorância e fez do nosso mundo um lugar melhor e que provavelmente é a pessoa mais importante que já existiu (mas que fica totalmente relegado ao segundo plano em prol da troca de dinheiro por mercadorias naquela época do ano): Sir Isaac Newton.


Ótimo texto, mas dá pra escrever mais umas simpatias aí?
Meu LSD acabou e estou atualmente vivendo uma overdose de realidade. Talvez demore um pouco para outra simpatia sair.
Excelente! Principalmente o “in silica”. Os relacionamentos não são como antes, viraram um tipo de conveniência social. As pessoas não ficam juntas por que gostam uma da outra e sim para não ficarem sozinhas, eu acho isso deprimente. Tem casais por aí que nem falam um com o outro e namoram a tanto tempo…
Felizmente ainda existem exemplos de companheirismo, a velha história do “amor que construímos juntos”, o romantismo não morreu, alegrem-se kkk
[fanático religioso da internet]
ISAC NEUTON ERA DO DEMONIO, O VERDADERIO SALVADOR QE NACEU NESTDI DIA FOI JSEUS CRISTO NOSSO SENHORE SALVADOR, AREEPENDÃOCE ENQUANTO Á TEMPO!
[/fanatico religioso da internet]
Confessa: este texto todo foi só um preâmbulo para a piadinha final, não é?
Essa fala é minha!
Na verdade, foi praticamente um fluxo de consciência.
Mas sim, quando a ideia final surgiu eu manipulei um pouco o texto para aumentar o impacto.
Mulheres. Confusas?…
Olá! Vim deixar meu oi e convidá-los a dar um pulinho no #••••••••• Beijoooos…
[...] O Natal foi, certa feita, um dia com conotações religiosas (no entanto, apenas após ser co-optado de rituais pagãos de adoração ao dia errado, o solstício ocorrendo quatro dias antes). Hoje é apenas um dia em que famílias que mal se falam durante o ano se juntam para comparar preços de presentes. [...]
olá, chamo-me mónica sousa, mais conhecida por nika, sou pêga e não sei o que é o amor! BEIJOX