Anotando meus hábitos, como de costume, percebi que posso deduzir a qualidade da minha alimentação recente pela proporção entre os talheres sujos na pia.
Partindo do pressuposto de que eu sempre como pelo menos uma vez por dia, não preciso me alistar em nenhum programa de milhagem calórica pois basta notar o que estou lavando no fim da noite.
Quanto mais complexa a interação entre os utensílios de mesa, melhor estou me alimentando.
Por exemplo: se quando eu voltar para casa no fim da noite encontrar a pia limpa, significa que comi algo manuseável sem auxílio de talheres, e a ausência de pratos me diz que o que comi também não estava quente o bastante para precisar de apoio. Ou seja, comi pão.
Se nem copo sujo tem, e visto que sempre deixo um copo para água no escorredor, ajudei o pão a descer com água.
Mas caso haja só um copo e nenhum talher sujo, uma investigação é iniciada, pois dificilmente bebo algo que não envolva ao menos uma colher para mexer ou um liquidificador para bater. A não ser que seja uma caneca; nesse caso, eu bebi café.
Se há uma faca suja e nada mais, eu a usei para passar manteiga no pão.
Se a faca está na pia e não parece suja, usei para cortar queijo após lambuzar o pão com manteiga.
Se há também um prato, esquentei o sanduíche no micro-ondas. Se uma torradeira, fiz torrada.
Se vejo apenas um garfo sobre a pia e conhecendo o conteúdo comumente encontrado na minha geladeira, concluo uma de duas coisas: ou comi azeitona direto do vidro ou engolfei umas duas fatias de presunto direto do pacote sobre uma fatia de pão.
Se há um prato e fiz bolo recentemente, comi bolo.
Adicione uma frigideira e fritei ovo. Uma panela funda e comi miojo.
Se só uma colher estiver visivelmente suja, péssimas notícias; comi nada além de doce.
Se tiver um prato perto, foi goiabada. Senão, foi algo pescado diretamente do recipiente.
Se vir uma faca, envolvia queijo.
Qualquer coisa acima disso já envolverá panelas e pratos, pois uma colher e um garfo jamais seriam utilizados parceiramente sem pelo menos uma panela para ferver o macarrão e um prato fundo para conter o molho.
A não ser no caso de 1 prato + 1 garfo + 1 faca, o que pode acusar que comi carne preparada antecedentemente no final-de-semana e requentada no forno.
A situação ideal seria me deparar com garfos, facas e colheres (pelo menos dois de cada, um para interagir com a refeição propriamente dito e outro para manuseio durante o cozimento) e também com duas ou três panelas onde adequadamente prepararia um protagonista proteico, algum coadjuvante carboidrático e, com alguma sorte, alguns figurantes clorofilados (que em condições selvagens servem como base alimentar do meu prato principal).
Esse serial o ideal nutritivamente falando. Em termos práticos de quem chega em casa às onze da noite, o ideal é ter comido um creme craquer melado com coisas que saem de tubos, recoberto com queijo ralado de pacote e isso tudo lavado com um gole d’água.
Até que a mistura desinche, me sentirei satisfeito por várias horas.

Essa é a pior parte de trabalhar durante o dia e estudar à noite: a preguiça – e fome – crônica, fora o esgotamento, quando se chega em casa. O meu ideal, pragmaticamente falando, seria comer dormindo, para otimizar o aproveitamento do tempo.
Ah, mas para isso Deus inventou a Nutrição Enteral Intravenosa.
Aliás, esse seria um bom produto para me levar de volta ao ramo do comércio…
Há notícias de “Nutrição Enteral Intravenosa” sabor “mandioca frita com bacon”, por favor?
Grata
Não acredito que consegui chegar até o fim desse post…
Ficou meio peba mesmo.
Mas pelo eu tô escrevendo…