Como toda atividade planejada de um calouro universitário, meus relatos diários das aulas não devem durar mais além desta entrada.
Aliás, o normal seria abandonar o projeto ontem mesmo, pouco depois de começar, mas atendendo a pedidos, vejam como foi meu segundo dia de aula.
———
Não espalhem, mas o único professor no qual eu vi algum futuro até agora é um físico teórico que ensina “fundamentos da matemática”.
Ontem ele abriu a aula introduzindo o conceito de sistema de coordenadas bidimensional e tridimensional.
Durante o primeiro, todo mundo entendeu como localizar X e Y e ele falou com certa desenvoltura e até um tanto rápido usando a velha cruzinha de segmentos de retas que deveriam ser infinitas, mas como a UFRN não tem orçamento para tanto, precisamos improvisar e nos contentar com dois traços ligeiramente retos se cruzando num ângulo de 90°.
Um observador externo hipotético perceberia facilmente a introdução do eixo Z ao notar uma diminuição brusca na velocidade dos acontecimentos.
A mudança de slide para a representação de um plano tridimensional foi como o acionar de um interruptor que encheu o local com mel de engenho. Especialmente a parte da sala ocupada pelas muitas mentes ali presentes.
Não houve transição; num instante tudo estava normal, no instante seguinte tudo, incluindo a voz do professor e a velocidade de resposta dos alunos, ficou bem mais lento.
O que antes era “onde se encontra o ponto (3,2)” passou a soar (usando uma representação gráfica livre) como “quando o eixo Z for diferente de zero, p a s s a m o s… a… t e r… u m a… n o v a… c o o r d e n a d a….” e por aí vai.
Z = 0, fluidez e desenvoltura, como correr em campo aberto.
Z ≠ 0, lerdeza e morosidade mental, como tentar pedalar uma bicicleta enferrujada. Ladeira acima.
Contra o vento.
A segunda aula foi ministrada por Aríete (eu estou sendo propositalmente malicioso porque já havia se passado uma hora e meia de aula e nenhuma cantina em todo o campus tinha sequer um pastel de saudade para abrandar o fogo da minha fúria. Filas sim, havia aos montes) e foi, até agora, a pior de todas.
Não pela matéria (química tecnológica), que ela não chegou a dar, mas pelos trejeitos arquétipos de professor de cursinho que ela tem.
Empolgada demais para minha ranzinzice, tentando fazer piadas renderem a qualquer custo, constrangendo os outros e dando ridículas ênfases-de-orador no meio de alguns termos (essa ênfase é aquela do tipo “durante a queima de combustíveis são liberados gases que contribuem para o aqueciMENTO…?……….” segurando a pausa até alguém completar o resto).
Para exemplificar a combustão, ela soltou a seguinte frase:
Todos nós presenciamos e tiramos proveito da combustão todos os dias; os homens andam de carro, queimando gasolina, e as mulheres, que adoram cozinhar, queimam gás em seus fogões.
Ah, o chauvinismo universitário…
E, para completar minha noite, uma feiosinha sentou ao meu lado e ficava pré-repetindo (tentando prever as próximas palavras que a professora iria falar e as proferindo com antecedência ao fato) duas em cada cinco palavras:
Professora: “esses são alguns exemplos de gases do e…”
Menina: “…feito estufa!”
—
Professora: “durante a aula evitem atender seus…”
Menina: “…celulares!”
Professora: “…telefones porque isso pode tirar a…”
Menina: “…concentração!”
Professora: “…atenção dos seus colegas de…”
Menina: “…classe!”
Professora: “…turma e até a minha…”
Menina: “…atenção!”
Professora: “…concentração.”
Menina: “…ntração!! :D”
—
Finalmente, ontem eu ouvi uma palavra que não ouvia desde, literalmente, o século passado:
PRÉ-LABORATÓRIO
Deu vontade de chorar.

Puxa, terminei o texto deprimida…. Acho que vou adotar aquela sugestão que havia dado a você…
Mas é muito chaaaaaaaaaaaaaaato…….