Acabo de chegar (escrevo de noite, publico de manhã) da minha primeira aula do curso de Bacharelado em Ciências e Tecnologia que aparentemente é um curso experimental, já que nenhuma pessoa em toda a UFRN sabe dizer do que se trata ou, mais abrangentemente, dar qualquer informação que seja sobre o curso ou onde ele está sendo ministrado (um prédio que deveria ter sido finalizado no começo de 2009 está sendo construído sem prazo de entrega exclusivamente para aquele propósito).
Depois de andar por cinco setores, pela reitoria e pelas secretarias de vários cursos, todos devidamente abandonados (particularmente as salas com “informações” e “atendimento” escrito nas portas), consigo uma alma caridosa que me leva a um local secreto onde consigo dois números de telefone. Um deles não existia e o outro não respondeu nas primeiras sete tentativas.
Mas como eu sou muito insistente e queria muito assistir às aulas (ainda não consegui identificar um motivo razoável para isso), consegui que me atendessem.
Infelizmente o segundo número era da coordenação de outro curso.
Mas a senhorita que atendeu foi gentil o bastante para me dizer onde as aulas deveriam estar acontecendo.
E lá eu fui, já bastante atrasado para a primeira aula. Que não houve.
Como eu estava atrasado para a primeira aula mas duas horas e meia adiantado para a segunda, fui para a festa de abertura das aulas que estava acontecendo no anfiteatro.
Na verdade, eu deveria me referir ao evento como “festa”, entre aspas. Bastante aspas. Não há aspas que cheguem.
O que vi pode ser condensado em duas palavras: charanga e camisetas.
Havia algumas poucas pessoas ao redor de um resto de banda de frevo que provavelmente se perdeu na saída da cidade (onde fica a universidade) e foi perambulando e tocando até a praça do campus.
Outra parte dos presentes, consideravelmente maior, contando com algumas várias dezenas eu diria, estava ao redor de uma banca improvisada onde estavam sendo distribuídas as camisetas dos calouros. P, M e G.
Após pegar a minha (que não coube), escutei duas marchinhas e preferi voltar ao local das aulas e esperar lá mesmo, no silêncio.
Assim que cheguei, fui recebido com a seguinte declaração de um veterano (da turma original, que entrou ano passado, o que apenas reforça minha ideia do curso ser experimental):
Sempre que vejo uma mulher, me matriculo logo! Sempre me matriculo em aula de mulher porque é mais fácil de passar!
Ah, o chauvinismo universitário…
Quando abri o caderno para transcrever essa pepita pura de pensamento pueril, escuto outra, um tanto melhor, da mesma boca gigante (sério, o rapaz aparenta não ter lábios de tão grande que é sua cavidade bucal), que reproduzo aqui ipsis verbis:
Você já ouviu alguém dizer “a minha primeira namorada. Casei, ó!”? Não tem!
Eu acho que a porcentagem de chance de casar com a primeira namorada é a mesma de ganhar na Mega Sena!
Uns 50%.
Ao recobrar os sentidos, anotei o ocorrido e me dirigi ao banheiro para limpar o sangue dos ouvidos.
Sendo eu um sujeito simples, não preciso de muitos confortos em minha vida, mas acho que a maioria das pessoas não pensa como eu e não gostaria de ter que se aliviar num lugar assim:
Para logo em seguida ter que limpar mãos razoavelmente imundas numa pia cujas opções são hipoclorito de sódio e uma pedra.
Do tipo mineral, não saponáceo:
Como não tinha mais o que fazer, resolvi ficar por lá mesmo até que vi várias pessoas entrarem na sala seguindo Legolas e fiz o mesmo.
Começa então oficialmente meu ano letivo.
Na minha sala há dois bebedouros com garrafões de vinte litros, mas nem um copo em vista. Amanhã já irei preparado com minha garrafinha plástica.
Há tambem espaço para cento e cinquenta alunos, o que virá bem a calhar quando todos os cento e vinte que completam minha turma resolverem frequentar as aulas.
De todos os cinquenta e tantos que foram hoje, eu sou o único que quer ser cientista. Todos os outros querem ser engenheiros (novamente, curso experimental. Entra todo mundo junto, sai cada um prum lado).
E eu pensava que seria bem mais velho que o resto, mas nem tanto. Bacharelado em C&T é um portal para o reingresso de velhotes na UFRN. Mas mesmo assim eu sou mais velho que a maioria, incluindo os professores.
E os coordenadores.
Como não possuo carro (a não ser por esta semana), meu plano era ser bem legal e entrosado com todo mundo, achar alguém que more aqui perto e que me dê carona todos os dias.
Mas eu não consigo. Já odeio todo mundo ali.
Sinto que minha vida será ótima nos próximos miliquatrocentos dias…



ois…
o meu marido casou com a primeira namorada.
será que é um bom presságio pra próxima mega sena???
; )
C.
Hahahaha, cara… ótimo! Vou aguardar novos relatos!!
Bravo! Muito, muito bom. Fez meu dia logo cedo.
Eu acho que a gente devia fazer um concurso de banheiros das Universidades… vou hoje mesmo fotografar o da UFSCar procê ver quilindcho e ficar um pouquinho mais conformado com a sua desgraça… Sacomé, brincar de Poliana??
Faculdade é uma experiência interessante. O problema são as pessoas.
Caro Igor,
Parabéns pela sua volta aos bancos escolares!
Eu acho que devo esclarecer que esse BCT da UFRN, experimental e tudo, é muito similar ao BCT da UFABC: dos trocentos alunos que entraram na UFABC, meio (ou menos) queria ser cientista e o resto queria é diploma de engenheiro, e isso não deu “tão” certo assim: segundo o reitor atual, em entrevista ao Estadão, a evasão foi alta (e há uma bela discussão sobre números – http://www.ufabc.edu.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2955:reitoria-divulga-esclarecimento-sobre-indice-de-evasao&catid=587:2010&Itemid=183)…
Um abraço!
Já odeia todo mundo no primeiro dia? Legal, me lembra de um trecho de uma música de uma banda chamada Reel Big Fish:
“Somebody hates me, And I hate somedoy too.”
Eu odeio todos os alunos da UFRN desde antes do vestibular.
Fantástico :D
[...] mais além desta entrada. Aliás, o normal seria abandonar o projeto ontem mesmo, pouco depois de começar, mas atendendo a pedidos, vejam como foi meu segundo dia de [...]