Peixoto tinha um furúnculo.
Três semanas antes de conseguir um emprego como assistente de balconista de atendimento numa entrevista que aparentemente foi muito bem apesar de seu nervosismo, Peixoto Jiang van Helmut (brasileiro filho de mãe chinesa e pai holandês) começou a sentir um incômodo na base da coluna ao que não deu muita atenção.
Quinze dias após a constatação inicial, ele descobriu (durante um auto-exame propício para um pôster central no Kama Sutra) que se tratava de um furúnculo que, por ser perto de onde as costas mudam de nome, dificultava-lhe o ato de sentar.
Ele não conseguia ficar quieto na cadeira, constantemente se encostando e desencostando, inutilmente tentando achar uma posição em que não doesse.
Suas não-muito-atraentes feições sino-germânicas haviam sido ainda mais comprometidas durante sua primeira infância, quando acidentalmente tropeçou num sapato de madeira do pai e caiu de cara no último degrau da escada de casa.
O resto da queda escada abaixo contribuiu para sua tendência em se assustar facilmente e sua dificuldade em iniciar sentenças verbalmente (ele também tinha dificuldade em criar frases mentalmente, mas essa característica era mais dificilmente notada).
Peixoto não tem barba (graças a genes glabros que herdou da mãe) e sua pele branca (de genes caucasianos do pai) é muito sensível ao sol e, apesar de seus 32 anos, seu rosto já é bastante entrincheirado por rugas. Esses traços combinados lhe dão uma aparência de um garoto de 15 anos que envelheceu rápido demais.
Ontem, quase dois anos completos após entrar naquela firma (seu primeiro emprego), Peixoto foi demitido.
Sua ascensão anti-meteórica (meteoros caem, não sobem) deixaria qualquer guru de auto-ajuda impressionado e qualquer empregado com inveja, mas nunca falaram um “ai” dele, longe disso! Arriscaria a dizer talvez até diametralmente oposto a isso. Ele era o funcionário mais bem tratado, mais bem recebido e mais ajudado de toda a empresa.
Apesar de poucos lhe dirigirem a palavra.
Pouco depois do cargo inicial de ABA, ele passou a ser Balconista de Atendimento e, apenas algumas semanas mais tarde, já era Balconista de Atendimento Diferenciado.
Quando conheceu o presidente da empresa, este rapidamente resolveu criar um cargo especialmente para Peixoto, que a partir de então seria chefe do Departamento Especial de Atividades Regulares.
Cinco meses após ter sido primeiramente contratado e apenas vinte e quatro horas antes de uma vistoria pela Corregedoria, sua posição foi mais uma vez elevada, sendo ele agora o sub-presidente da Chefia de Operações, Atividades Regulares e Direcionamento de Recursos.
No aniversário de um ano da sua contratação, a mídia local foi chamada para cobrir a festa de criação de ainda mais uma posição a ser ocupada por ele, que passou a ter em seu crachá o título de “Presidente Operativo de Recursos e Atividades Autônomas e Mestre de Armazenamento”, mudado novamente sete meses depois para “Presidente Sênior do Setor de Recursos, Atividades e Armazenamento”, durante coincidentemente outra entrevista coletiva de imprensa.
Neste ponto cabe salientar que, apesar de todos os nomes inventados, Peixoto jamais foi transferido das suas funções reais de almoxarife/arquivista.
O motivo real de tanta pompa (e também a causa da eventual demissão) foi a impressão deixada durante a entrevista com o chefe do RH, o Diretor de Operações e o Vice-Presidente, onde Peixoto respondeu a maioria das perguntas com “eeeeeeeerrrrrr… eu acho hummmmmm… que eu aaaaaaaaaaaaaahhhhhh” mal conseguindo formar frases coerentes, balbuciando bastante, contorcendo seus traços estranhos e se mexendo incontrolavelmente na cadeira.
Os entrevistadores se entreolharam desconfortavelmente, esperando as reações dos outros até que decidiram, praticamente em uníssono, contratá-lo.
Já lá dentro, Peixoto subia e subia, mudando cada vez para cargos cada vez mais altos (apesar de sua função real jamais mudar) e a sensação de que tinha responsabilidades cada vez maiores o fazia pensar que não tinha tempo para sequer ir ao médico.
Tudo mudou sexta-feira, quando ele saiu meia hora mais cedo para finalmente ter seu furúnculo removido e ter um final de semana inteiro para esperar sarar, funcionário correto que era.
Segunda-feira logo cedo, começou o burburinho e todos comentavam como ele estava quieto, alguns até cogitaram chamar uma ambulância, quando finalmente alguém resolveu falar com Peixoto.
Mas somente no dia seguinte, anteontem.
Quase dois anos do ótimo tratamento que recebia na firma fizeram maravilhas para seu brio e agora, diferentemente do dia da entrevista, ele conseguia articular as palavras e falar com certa desenvoltura (apesar de sua capacidade cerebral não permitir que ele lembrasse que aquele balconista em particular jamais havia lhe falado antes), então contou que finalmente havia removido o furúnculo, causador de seu balanço ritmado na cadeira.
“Então você não é autista!?”, exclamou o funcionário perplexo, rodeado de outros empregados igualmente desnorteados.
Ontem ele foi demitido.
E hoje a firma teve que devolver o diploma de Empresa Consciente que ficava exposta na sala do presidente.


Hehe, mais um exemplo de que “a oportunidade faz o ladrão”. Ótimo conto!
Inté!
Adorei o conto, muito bom ^^