Gostaria de começar este artigo repetindo que já disse no Twitter: vestibular é o zênite da curva de idiotice que representa nosso sistema de ensino.
A maioria das provas é elaborada considerando que raciocínio lógico, bom senso e conhecimento de mundo são equivalentes a estupro de lactentes e holocausto.
O negócio é decorar fórmulas. E não adianta disfarçar com estorinhas pseudointeressantes e gráficos bonitos (que no PDF são muito coloridos mas na prova aparecem em 16 tons de cinza) porque, no fim, as questões voltam a pedir definições funcionais e fórmulas mnemônicas.
De domingo até ontem eu revi caras que não via há muito. Garotos e garotas roendo as unhas em apreensão, franzindo a testa em nervosismo e suando profusamente em desespero.
A mensagem que eu gostaria de passar para essas crianças é a seguinte: não se descabele, não fique tão nervoso, porque no fim das contas passar no vestibular não adianta de nada.
Vestibular é um exercício de futilidade e jamais resolverá qualquer problema. Dez anos depois da prova sua vida estará muito pouco afetada por aquela.
Se você for esforçado, interessado e inteligente, vai se dar bem na vida com ou sem faculdade.
Se você se orgulhar do fato de que passou toda a sua vida colegial indo a festas, bebendo e contando piada em sala de aula, universidade será apenas a graduação do seu estilo de vida desprezível.
Desista cedo e vá atrás de um(a) velho(a) rico(a) que queria casar pouco antes de morrer.
Por outro lado, é impressionante como essa porcaria está impregnada na nossa cultura.
Eu não tenho superstições, não tenho medo de pragas ou fantasmas e, tirando uns poucos episódios alucinatórios noturnos, não tenho pesadelos.
A não ser em véspera de vestibular.
Nunca na minha vida (pós-infância) eu fiquei nervoso, sempre fui muito calmo, controlado e, por que não, frio.
Jamais sequer pisquei demais por causa de uma prova, concurso, entrevista, o que quer que fosse, em qualquer idioma.
Nem medo de palco eu tenho.
Mas sempre que presto vestibular (essa foi a quinta vez) eu durmo mal.
Eu não preciso passar, já tenho meu apartamento, emprego, recursos, etc, etc, estou fazendo só pela “diversão” e ver se as coisas que eu aprendi na minha vida servem para alguma coisa.
Ou seja, esses três dias de prova para mim deveriam ser, e eram de fato, apenas uma desculpa para manter meu celular desligado por duas horas (nunca fiquei mais de duas horas e meia fazendo prova, porque eu sei quando eu não sei alguma coisa).
Mas mesmo assim eu fui infectado com a Síndrome do Vestibulando, que faz milhões de jovens todo ano acharem que suas vidas estão para acabar numa nota de prova.
Da primeira vez que fiz, eu botei a culpa na repetição incessante de palavras-chave como “vestibular”, “futuro” e “melhor chance” durante aulas e fora delas.
Em uma semana eu ouvi, dentro da sala de aulas, “vestibular” ser dito 147 vezes. Eu comecei a anotar para estatísticas futuras, mas acabou que era só isso que eu estava fazendo, então eu continuei só até acabar a semana.
Isso e o terrorismo psicológico de aproximadamente todas as pessoas ao meu redor, pois cada uma tinha sua própria fórmula mágica de passar e coisas a serem evitadas.
Por exemplo, desde a quinta série (ou o grau correspondente para uma criança de onze anos) eu não escrevo uma só letra minúscula.
TUDO QUE EU ESCREVO A MÃO FICA MUITO PARECIDO COM ESTA FRASE.
E isso era absolutamente-proibido-a-UFRN-vai-lhe-reprovar-e-vão-mandar-um-esquadrão-de-espacamento-para-dar-uma-surra-na-sua-mãe de tão errado que era.
“Jamais vão aceitar sua letra” ainda hoje me é dito apesar de eu ter passado nos quatro primeiros e ter ótimas chances de passar neste último.
“Sem fórmulas, não se resolve qualquer questão” também ainda é muito utilizado apesar de até hoje eu não saber fórmula alguma (o que não contradiz o que eu disse lá em cima, pois eu sei resolver problemas de outro jeito que nunca-jamais-em-tempo-algum é ensinado em sala de aula, pois professores preferem linhas prontas e fáceis de decorar para não ter que responder perguntas de alunos desacostumados a pensar).
Desta vez eu me sentia o He-Man do futuro acadêmico. Só cinco pessoas sabiam que eu ia fazer essas malditas provas, mas mesmo assim eu pesadelei que estava numa sala quente, suando, sem saber as respostas das coisas, e acordei duas horas antes do combinado com o meu despertador.
Não tenho explicação. Nem num motivo genético-quântico para meu sono perturbado eu consigo pensar.
