Acabo de voltar da capital da Argentina e tenho alguns conselhos para dar.
O primeiro é: se você não gosta de Pepsi e gosta de água, não vá a Buenos Aires.
Coca-Cola é rara como ouro e apreciada como tal, custando até seis vezes o valor do seu concorrente cafeinado. Aliás, lá não existe concorrência, só Pepsi.
A água pode ser descrita como “aveludada com toques de cera” ou, mais popularescamente, “com gosto de bunda”.
Eu achei melhor beber a água da torneira (que é completamente potável, desde que você não seja alérgico a teores de cloro equivalentes ao de piscinas públicas em cidades quentes) do que as engarrafadas “mineralizadas artificialmente”. A água argentina é simplesmente pépsima.
Segunda dica: antes de ir a Buenos Aires, se certifique de que você consegue lidar com doce de leite.
Porque se você acha que eles só colocam doce de leite em sorvetes, biscoitos, sucos, charutos, licores e não o colocam em filés, ovos fritos e estações de metrô, você está enganado. Muito enganado.
Se quiser dirigir na capital federal, esteja atento para as seguintes sugestões: faixas, sinalização horizontal, semáforos e limite de velocidade.
Novamente, todos esses itens, em semelhança à “caixinha de Natal” de padarias, são apenas sugestões. Os argentinos são excelentes motoristas e conseguem calcular com perfeição o tempo dos sinais sem necessidade de diminuir a ultravelocidade em que guiam, conseguindo encaixar até oito carros em uma pista de três faixas.
Portenhos só param quando sob placas de “proibido parar”. Mas sempre ligam o pisca-pisca. O que nunca fazem ao se aproximar de uma curva que pretendem tomar.
O sistema de metrôs é muito bom por três motivos: é extremamente barato (um peso e dez centavos, equivalente a seis centavos de real), funciona até as onze da noite e o mantém sob a terra, longe do alcance dos carros.
Num lugar onde as avenidas são imensamente largas e o limite de velocidade é dado pela potência do motor, evitar atravessar a rua é sempre uma ótima opção.
Quando em Buenos Aires, se você vir uma ladeira dê meia-volta, pois você está saindo da cidade.
O lugar não é apenas plano, como a Terra já foi um dia, mas é reto, como um tórax pré-adolescente ou como a lateral de um móvel caro.
Se você gosta muito de carne e linguiças achurrascaiadas e gosta ainda mais de pagar muito pouco por elas, visite qualquer lugar com parrilla escrito na fachada.
Os pratos são individuais, desde que você seja um monstro gigante glutão que adora carne, e os acompanhamentos são opcionais, num mundo onde as opções se resumem a “batata” e “nada”.
Nos lugares de comer, existe uma taxa individual chamada acubierto, que se justifica pela presença de pão sobre a mesa e é melhor traduzida como “pela cara do cliente”.
O valor fixo está sempre no cardápio, mas a cobrança ou não é aleatória. Às vezes não cobram, outras vezes cobram um para cada pessoa e outras ainda cobram a mais, pela presença do amigo invisível que cada um de nós tem.
Se você gostar do pão da casa, não se acanhe; você tem direito a ficar o dia inteiro se refestelando com pão e azeite pelo valor intrínseco cobrado no momento em que você se senta e pede o cardápio.
Se você for alérgico a cachorros ou, no mínimo, se sentir desconfortável com a presença deles em bares, lojas, shoppings, trens, hotéis, supermercados e, não especialmente mas principalmente, ruas, faça um favor a você mesmo e evite Buenos Aires completamente.
Se quiser conhecer La Boca, reserve um dia inteiro.
Apesar de ser um bairro pequeno com e poucas atrações, uma anomalidade espaçotemporal faz com que ele seja muito distante de tudo, inclusive dele mesmo. Não importa onde você esteja no país, irá demorar entre cinco e oito horas para chegar lá de táxi (que, por serem majoritariamente parte de uma frota de carros novos, são extremamente velozes nas mãos do pilotos portenhos).
La Boca ainda não tem estações de metrô pois não importa o quanto cavem, jamais conseguirão atravessar a parede da bolha anômala de distorção temporal que circunda o local.
Uma coisa que me surpreendeu e que agora apresento a vocês é, ao contrário do que eu pensava, se você for reconhecido como brasileiro passará automaticamente a ser bem tratado, pois aparentemente nós somos os primos ricos do cone sul e gostamos de gastar dinheiro nos pampas estrangeiros.
E, para finalizar, um aviso: se uma velhinha sorridente perguntando “donde se en Brasil?” tentar abordá-los na rua com uma fitinha azul e branca de lapela, corram!
Elas aceita pesos, dólares e realitos e ainda entrega centenas de santinhos em locais sem lixeiras por perto.


“Tu foi pra buenos aires ?” é a pergunta que eu faria se não tivesse lido isto.
O texto é bom, parabéns.
Penduraste a placa “Keep out” antes de sair fora? Hehe!
Obrigado pelo serviço de utilidade pública.
Inté!
Não me entendam mal; eu gostei de lá e até voltaria.
Levndo algumas garrafas d’água, é verdade, mas voltaria.
Voltaria mesmo?! Hum… sei…
Hehe!