Parafraseando G.G. Marquez, o telefone é um aparelho contra a natureza, que condena dois indivíduos a conversas estranhas e inúteis, tanto mais efêmeras quanto mais intensas.
O grande avanço que a tecnologia sofreu para permitir que telefones não tivessem fios se deu com uma única finalidade: nos desamarrar das paredes para que pudéssemos, finalmente, vagar a esmo por horas e horas, movidos pelos poder que nos impele enquanto estamos conversando com alguém à distância.
Raramente vejo alguém parado, falando ao telefone.
Nossos sentidos também são afetados pelo instrumento, que causa uma perda temporária do controle de modulação no trato vocal e uma leve surdez, aparentemente resultando na incapacidade de se falar num volume menor que 90dB SPL.
Quanto maior o silêncio inicial, maior o impacto.
E poucos (ou nenhum) lugares são mais silenciosos que um banheiro público masculino.
Pelo Código de Ética e Conduta a que (quase) todos nós homens nos submetemos, é terminantemente proibido fazer contato, seja ele visual ou tátil, com qualquer outro homem que lá dentro esteja e é especialmente desencorajada a produção de qualquer ruído que não seja proveniente do encanamento ali instalado (i.e. torneiras e descargas), recomendando-se ainda que o jato de urina seja direcionado à louça e não diretamente à água.
A falta de estímulo sonoro dentro de um toalete masculino é maior do que aquele silêncio de tensão dentro de um elevador cheio de desconhecidos, quando ele já está no andar correto mas ainda está estabilizando antes de abrir as portas.
Então, imaginem o meu choque quando estou descarregando a amônia acumulada em meu organismo (ou desbebendo) e, de repente, adentra o recinto um pobre coitado sob o controle hipnótico de um celular, que lhe controla as pernas, a caixa torácica e as cordas vocais.
Por ser um ambiente com nível de ruído muito próximo ao limiar de audição onde quase é possível ouvir o sangue fluindo dentro do pescoço, a quebra desse silêncio foi tão estranha e aterradora quanto o choque que se tem quando dá-se um gole grande, daqueles de matar a sede de um dia inteiro, num copo d’água que está na verdade cheio de suco de laranja.
Não sei o que se sucedeu após tenebroso acontecimento, pois saí de lá o mais rápido que minha fisiologia permitiu, pois como diz o ditado: “coisas estranhas acontecem em situações estranhas”.


como é sabido, sempre que vou a um banheiro público saio com um causo a mais para o meu repertório… no último sábado, por exemplo, quase apanhei no do midway porque fui ser legal e dei uma dica a um caba bronco de como tirar o papel-toalha do esquema emperrado… acho que eu não devo mais ir ao banheiro desacompanhado, por mais que isso soe estranho. :|
“Ai, moço… pra você tirar o papel, primeiro precisa soltar seu rolão… deixa que eu seguro pra você.”