Quando eu era criança e tinha medo de assombrações, eu me valia de truques para tirar a minha mente das situações horripilantes em que eu mesmo a metia.
Por exemplo: estava eu certa vez na casa de praia da família, numa rede, vendo TV (ainda era na época que os canais saiam do ar depois de certa hora, o que possibilitava fenômenos como esse logo cedo no outro dia),
num daqueles dias em que dois filmes passavam um logo após o outro (não lembro bem, mas acho que Domingo Maior e Corujão). O primeiro filme foi um de terror, ou terror para mim, que era muito pequeno e medroso. O filme na verdade é uma “comédia de terror”; A Volta dos Mortos Vivos.
Depois que o filme acabou, e já bastante arrependido por tê-lo assistido tão tarde da noite num lugar tão deserto e escuro como uma casa de praia nos anos 80 (eu dormia sozinho na sala, ao lado da porta da frente), ainda com a TV ligada, tentei relaxar e dormir. O que obviamente eu não consegui fazer.
O filme na sequência era Os Nove Irmãos, um faroeste-drama (nada de tiroteios) com um início bem besta, com a família reunida tocando gado e se abanando com chapéus.
Devo ter assistido aos primeiros cinco minutos do filme e não aguentei de sono (esclarecendo: o que eu não consegui fazer dois parágrafos acima foi relaxar. Mas dormir é meu filão e nunca falhei nessa tarefa) e escorreguei para a terra dos sonhos. Pesadelos, na verdade.
Nesse ambiente, sempre que uma horda de zumbis começava a me perseguir, eu me forçava a imaginar nove caubóis, assoviando em uníssono (vaqueiros não sabem harmonizar), enxotando moscas e contando piadas.
Essa medida resolveu meu problema e eu consegui alcançar o sono profundo. Onde fiquei aprisionado pelos meus medos, sem a menor condição de conseguir pensar em outra coisa, sendo levado pela maré de pavor que me afligia naquela madrugada insana de mortos-vivos a cavalo.
Em outra ocasião, assistia ao (finado) programa TV Pirata, que parecia muito engraçado para uma criança de dez anos mas que, e não me resta dúvida no que vou dizer agora, é o tipo de programa que não contém humor num nível mais elevado que aquele da pré-puberdade. Outro exemplo claro e que sobreviveu ao teste empírico por durar tanto no ar é A Praça É Nossa (ou A Sem-graça É Nossa, como eu costumo chamar).
Pois bem, em um episódio eles mostraram cenas de vários filmes de terror com um locutor dizendo coisas do tipo “depois do massacre num-sei-quê, da noite de num-sei-quem, depois do terror da sexta-feira 13…”, entra uma pausa no monólogo com mais cenas sangrentas e, de repente, um corte brusco e aparece uma praia bem ensolarada com muita gente de biquini e o anúncio: “Veja Sábado 14! Um filme com muito sol, praia, alegria, diversão e gente bonita curtindo a vida. Num cinema perto de você.”
E esse truque imediatamente achou espaço no meu repertório de artifícios anti-medo. Sempre que pensava em seres imaginários perversos e sanguinolentos, mudava o foco para o SÁBADO CATORZE e aquela cena ultra ensolarada e com muito pouca roupa ajudava a evaporar minhas aflições.
Hoje é sexta-feira 13 (de nada).
Notei isso agora enquanto colocava a data num documento (deveria estar trabalhando) e lembrei dessas estórias da minha infância.
Mas comecei a escrever tudo isso só como bucha, só para fazer volume, porque lembrei de outra, a que queria compartilhar, mas por ser muito curta não daria um bom artigo.
Dos vários gatos que já possui na vida, dois deles vieram de uma ninhada de sete gatos pretos que nasceram em 1999, numa sexta-feira 13 em agosto, (queria poder incluir que isso se deu de meia-noite, embaixo de uma escada e em cima de um espelho quebrado, mas não estou aqui para mentir).
Legal, né?


[...] Se vocês achavam que eu estava me referindo ao fato de hoje ser uma sexta-feira 13, odeio desapontá-los. [...]
Hoje foi o dia 1234567890
=D
Como assim?
http://www.ovelho.com/content/1234567890
=]