Lembrei de uma boa ali enquanto bebia água; uma anedota que ilustra o que a nossa sociedade faz com as pessoas e suas frágeis mentes.
O ano era 1999, eu já estava na faculdade e fui convidado para uma festa/churrasco de uns alunos dum pré-vestibular daqui, mais ou menos por esta época do ano. Ou seja, perto dos dias das provas mas não tão perto de modo que a tensão não deixa os estudantes sair de casa para congregar com os amigos.
Depois de muito churrasco e refrigerante (os tempos eram outros, naquela época ainda não existia álcool), nos sentamos formando uma grande elipse (contávamos com umas vinte e poucas pessoas) e então apareceu uma tirrina de pipoca, que ficou circulando (elipsando?), passando de mão em mão; cada um pegava uma ruminha e passava a bacia para o próximo.
Não lembro se a guloseima estava boa, mas é certeza que não estava ruim, pois, por mais sem gosto que esteja, é uma impossibilidade física milho recém estourado ser ruim.
Todos conversavam animadamente, tentando evitar ao máximo assuntos que remetessem a provas, testes, concorrência ou universidades, enquanto degustavam e passavam fraternamente a tremenda tigela.
Já na (ou pelo menos “depois da”) segunda rodada, quando cada pessoa ali presente já havia sentido aquele sabor amanteigado e mantinha na boca um gostinho de quero-mais, um problema de fluxo surgiu e me chamou a atenção momentaneamente: uma garota repousou o balde contendo as pipocas no colo e, no calor do debate sobre como aquela picanha com guaraná de mais cedo constituía uma refeição digna de apreciação e repetição, esqueceu de passá-lo adiante.
Um colega, sentado a duas cadeiras da última receptora, notando a falta de estímulo em suas pupilas gustativas (mesmo sobre o esforço lingual da discussão sobre ondas e marcas de parafinas e o dilema das quilhas; agilidade vs. estabilidade), entrou em estado de alerta (pupilas dilatadas, respiração ofegante, audição hipersensível) e encontrou, farejando, o prato com os petiscos, inerte, sobre as pernas da menina.
Eis então que procedeu a requisitar a presença do acepipe em suas mãos:
“Ei! Passe aí a pipoca!”
A então guardiã do milho processado, por um desvio de concentração, não ouviu a súplica do rapaz, e, por isso, permaneceu a se portar exatamente como antes.
Num acesso exponencial de loucura, movido não tanto pela fome mas pela mais pura e selvagem necessidade de saciar seu desejo pelos brancos tufos crocantes de grãos aquecidos até o ponto de colapso de sua estrutura rígida, seu vigor foi incrementado e seus pedidos cresceram brutalmente em intensidade:
“EI, MENINA! Passe aí a pipoca, por favor!!”
Neste exato momento houve uma pausa.
Todos os presentes, num surto de empatia humana intrínseca, fizeram silêncio ao mesmo tempo, por não mais que o tempo suficiente para ouvir o desesperado garoto perder as esperanças enquanto murmurava:
“Aff, essa menina não vai passar não…”
Ela, o alvo dos pronomes, ouviu, inconscientemente, as últimas frases e passou a receber mensagens através de sua mente consciente apenas no último “por favor”, rogado pelo já derrotado colega, e, num gesto inesperadamente espantoso de altruísmo e humildade, compartilhou a comida com ele, imediatemente após o silêncio mútuo que havia se instaurado transitoriamente.
Tudo então voltou ao normal.
Ou pensei eu.
Depois do que me pareceu (em uma memória já com quase dez anos) cinco minutos, minha atenção é novamente direcionada à garota, que agora é consolada por uma amiga, enquanto soluça muito, talvez devido ao choro incontrolável instalado em seu ser.
Essa cena atraiu, não só a minha (como primariamente pensado), mas a concentração de todos os presentes.
Ela realmente chorava bastante, com gosto, tanto que todos passaram a se preocupar e a pedir esclarecimentos, tarefa que mostrou-se, não surpreedentemente, irremediavelmente impossível para a pobre menina que mal conseguia arfar ar suficiente para evitar expirar.
Depois de mais uma quantidade de tempo indefinível em meu cérebro, ela conseguiu ser acalmada e passamos a não mais temer pela exaustão da sua vida, mas continuávamos curiosos quanto ao motivo de tal ataque.
Em seguida, alguém bravo o suficiente, produziu a pergunta que pairava sobre nossas cabeças:
“Mas por que você começou a chorar?”
A jovem, ainda com o rosto inchado dos que choram, e não totalmente recuperada do pânico que a afligiu, tentou, meio constrangida e gaguejando, explicar:
“Eu estava distraída, pensando se o curso que eu escolhi seria realmente o certo para mim e se eu iria conseguir ser aprovada, aí escuto ele dizendo que eu não ia passar…”
E começou a chorar de novo.
e aí? ela passou ou não?
Francisco, eu não sei.
Mas tomara que ela tenha passado, a bichinha…
hehehehehehehehehehehehhehehehehehehehehehehehehehehehehehheheheheh
heheh
hehehehehehe
hehe
QUA QUA QUA! A pipoca, anta! A pipoca!