Uma vez eu procurei por uma explicação razoável (nem precisava ser nada cientificamente provado, bastava fazer o mínimo de sentido) do porquê homens suam mais que mulheres.
Achei várias páginas dizendo que mulheres têm um mecanismo mais eficiente de dissipação de calor. Muito bem.
E?
Explicou o que eu já sabia. Mulheres suam menos porque não precisam.
Por que?
Minha busca foi frustrante e infrutífera.
Pois bem. Desisti disso, vou contar um causo.
Dia desses estava eu, num carro, esperando.
Escolhi uma sombra completa de uma árvore frondosa num canteiro central de uma rua calma de paralelepípedos e parei o carro embaixo.
Abri todos os vidros e a porta do meu lado para aproveitar o vento (venta muito em Natal nesta época do ano).
Tirei a camisa e me sentei um pouco mais para a frente, para desencostar as costas do encosto do banco e aumentar minha área de contato com o vento que soprava.
Não estava suando, mas também não estava me mexendo; estava no limiar da sudorese. Se levantasse minha sobrancelha com um pouco mais de vigor, suaria.
Uns dez minutos se passam e uma camionete estaciona do outro lado do canteiro, exatamente ao meu lado.
Uma mulher apenas habitava a carroceria.
Pelo que deu para perceber, ela parou para falar ao celular.
Do lado do canteiro em que ela parou, a sombra não era completa (muitos espaços na copa da árvore deixavam passar o sol) nem se estendia por toda a extensão do automóvel, deixando-o aproximadamente 75% sob luz solar.
Depois de algo que pareceu dez minutos (aproximadamente oito páginas do livro que lia, o que é uma maneira eficiente de contar o tempo enquanto leio, um página a cada minuto e vinte, sem me preocupar com o relógio), ela abriu o equivalente à largura de dois dedos humanos da janela do lado do passageiro, talvez numa tentativa de melhorar a troca de gases entre os ambientes interno e externo da buléia, como aquelas minúsculas aberturas em caixas de transporte de animais peçonhentos que são apenas grandes o suficientes para deixar passar moléculas gasosas e não a besta a ser transportada.
Mais alguns capítulos se passam e o fim da minha espera se aproxima e a motorista impávida, ao celular, sequer se abanou ou soprou o sopro dos que têm calor mesmo depois de meia-hora de gesticulação excessiva dentro de um carro lacrado (a não ser pelos cinco centímetros de respiradouro), com a maior parte de sua lataria escura de chapa ao sol (um transdutor de energia luminosa em energia térmica, de luz visível em luz infravermelha), que tremeluzia e criava um espetáculo hipnotizante de fatas morganas em sua superfície.
Enquanto eu, na penumbra, imóvel como um sapo defronte a uma cobra, seminu, com o máximo de contato com o vento (cuidadosamente estudado para ampliar sua potência e otimizar sua eficiência usando a posição do veículo, o ângulo da porta e a abertura dos vidros), sinto brotar, no alto das minhas costas, imediatamente abaixo do meu pescoço, uma gota de suor.
Nossa… foi bem filosófico, diria até que se tivesse visto esta cena, seria habitual até…
Mas…. Nesta sua crônica… Deve-se ressaltar que a mulher não deveria estar por volta da idade da menopausa!!
rsrs Parabéns pelo texto :)
Mas será que a caminhonete não tinha ar condicionado, não?
A camionete estava desligada.