Estava agora mesmo lendo alguns dos milhares de blogues que tento ler diariamente e outros que só leio vez por outra e uns que só leio uma vez, clicando num link de um comentário ou etiqueta aleatória e conclui, sem pensar muito, que é muito fácil ser lido.
Um garota, que pelo conteúdo de sua página deve ter uns quinze anos, mantém um blogue dedicado ao cuidado com a pele, especialmente do rosto. Cheguei lá por um comentário que ela deixou em um artigo meu, meses atrás.
Não vejo coisa alguma errada em querer ter o rosto limpo de espinhas. É bom para a auto-estima não pensar que tem sempre alguém reparando nas cicatrizes do rosto. Meu problema com isso, bem pequeno mas um problema de fato, é o teor dos textos dela e dos comentários de suas leitoras.
Do meu ponto de vista, ela não só busca a cútis ideal, ela glorifica os remédios, loções e pomadas que usa e, inconscientemente ou não, acaba os “receitando” e recebendo retorno, através de comentários, em forma de mais remédios recomendados.
Ela tem uma dermatologista, o que é bom, pois aparenta não se deslumbrar com todos os cremes e usar só os específicos para seu caso, mas é muito fácil ser lido e é muito fácil ser mal interpretado. Posso estar fazendo isso agora, com a pobre menina, mas é um risco que eu e ela corremos todos os dias. Nossas palavras estão no ar, vinte e quatro horas por dia e, dentro de um futuro imediatamente previsível, para sempre.
Grandes poderes trazem grandes responsabilidades, já avisou tio Ben.
É muito fácil ser lido, que o digam as duzentas e setenta vezes em que meu blogue foi acessado anteontem, por pessoas buscando por experiencia limao vinagre acender lampada, soldador feminino para santos, coloco fotos namorada nua internet, parasitos, vírus que dão em umidade, demoñstração da constante de avogadro, simbolos usados no msn Ô.Ô, clicando em qualquer uma das setecentas e vinte e sete etiquetas associadas à minha página (18 anos, vazamento, xisxis, trem gravitacional, esporadicidade, etc) ou na minha assinatura em centenas de comentários espalhados por blogues do mundo todo.
É muito fácil ser lido.
E se eu estivesse falando de métodos de suicídio?
Minha audiência não é de milhares ou milhões, mas é de centenas. Antes disto aqui, poucas pessoas haviam ouvido as minhas idéias e opiniões.
E o que eu dizia era, ou não, absorvido só na hora e se perdia no vento. Agora é pro resto da vida da Internet.
O que eu digo, o que a menina da cara limpa diz e o que apologistas do suicídio dizem.
Somos todos responsáveis pelo que dizemos e pelo que lemos, e agora, mais ainda.
Facilidade de acesso a informação tem preço. Não é tão caro, mas temos que saber barganhar.
“Não acreditem em mim. Eu minto tanto quanto vocês…”
-I.S.-
P.S. Visitem o Lablogatórios. Lá tem gente responsável e que escreve bem.