Lógico que faz.
Durante o meu curso (Engenharia de Áudio e Acústica) eu me envolvi numa discussão acalorada com um professor meu sobre isso.
O ponto de vista dele era “filosófico” (novamente, essa palavra é boa para tentar validar qualquer estupidez e disfarçar sua irrelevância), ou seja, antropocêntrico.
Um som só seria um som se ele o ouvisse.
Ou alguém humano como ele.
A definição técnica (e a que deveria ser sempre usada dentro de uma sala de aula com Acústica Avançada escrito na porta) de som é: Fenômeno acústico que consiste na propagação de ondas sonoras produzidas por um corpo que vibra em meio material elástico.
Ou seja, Som é “transmissão de ondas físicas (sonoras) através de um meio”.
Dizer que a árvore não faz barulho quando cai porque não há alguém para ouvir é como um cego dizer que não existe mundo.
Outro espertíssimo professor (de Trilha Sonora para Filmes e TV) do mesmo curso levou a patética tentativa de fazer algo totalmente ridículo soar plausível para pessoas sem conhecimento específico de Física o filme What the #$*! Do We Know!? para a sala e tentou, sem muito êxito, construir uma ponte entre aquela idiotice e nosso trabalho com som (algo como nos fazer usar física quântica ao mixar um disco, mas não lembro bem, pois estava com a cabeça ocupada tentando desmentir todas as cenas do vídeo).
Quando o DVD acabou e ele terminou seu discurso, eu tentei explicar (o pouco que sabia na época) o que era Física Quântica, como as coisas do mundo funcionavam e porquê aquilo tudo era uma enganação que tinha como alvo pessoas razoavelmente inteligentes mas com um ponto-cego para explicações pseudocientíficas com nomes semicientíficos e que aparentam fazer sentido.
Em vão.
Ele já havia sido capturado pela armadilha do “você pode se dar bem, basta desejar forte o suficiente”.
O ponto do filme em que mais me concentrei e a que mais me ative foi uma cena onde uma “Ph.D” (em Sacanagem Avançada e Aplicada, creio) afirma, com uma convicção que deixaria P.T. Barnum se achando inepto na arte de Enganar Otários Com A Cara Limpa, que quando os Astecas avistaram o primeiro navio espanhol que surgiu no horizonte americano, eles, na verdade, não o viram.
Apenas notaram um distúrbio nas águas e no ar ao redor da nave, mas por se tratar de algo tão inusitado, inesperado e irreconhecível, nenhum deles conseguiu formar, em suas retinas, a imagem de um navio, até chegar o chefe da tribo, um homem muito sábio que disse “o que está causando esse fenômeno é um navio” aí passou a descrever o veículo, o que causou, imediatamente e em todos ao mesmo tempo, que vissem o barco se aproximando.
Primeira coisa que eu disse: Como é que essa mulher sabe disso? Teria ela discutido com o espírito do velho Pajé?
Segunda coisa: se nenhum deles viu o barco por se tratar de algo diferente e bizarro, será que matutos do sítio teriam cegueira direcionada a aviões e prédios altos?
Nessa imbecilidade obra pude conhecer também um sujeito que acredita que água, quando xingada, acha ruim e cria “cristais” que guardam uma memória do abuso.
Para provar sua teoria, ele mostrava copos de água pura que foram bem tratadas e elogiadas e copos, contendo o que ele dizia ser a mesma água (mas que claramente continham água suja e CONGELADA), que estariam impuras por terem sido maltratadas.
Conclusão do gênio: nós que, segundo ele, somos compostos de mais de 90% de água (está mais para 60 a 75%, mas isso é um dado difícil de obter e de pouca importância para um Doutor em Filosofia do calibre do cientista experimentador que cria uma hipótese dessas sobre ÁGUA e o CORPO) devemos procurar quem nos trate bem para que não fiquemos sípidos, nodoros e colores como seus copos mágicos.
Pessoas realmente gostam de acreditar em besteiras.
Meu curso foi muito bom, me ensinou muito sobre Gravação, Mixagem, Edição (minha especialidade) e Masterização, como também sobre Física (aplicada a som), História (da música e da produção e gravação sonora), um pouco de Arquitetura básica (design interior de estúdios) e, por essas e outras, Pensamento Crítico.
Passei semanas e semanas enfiado em uma das melhores bibliotecas do mundo com acesso fácil e rápido a virtualmente qualquer livro que quisesse e li até sangrar os olhos (figurativamente), mas infelizmente, nem o volume monstruoso de informação que obtive em três anos de estudos foram suficientes para convencer um professor de Acústica que som não é necessariamente “aquilo que se escuta” e um outro, de História Fonográfica, que Probabilidade Quântica não é um fenômeno macroscópico.
Outra coisa que aprendi no meu curso: não sou bom em desconverter os outros.
Dá uma olhada no Dragão da garagem, lá tem isso e uma ótima resenha sobre esse filme!!! http://dragaodagaragem.blogspot.com/2008/01/que-eles-esto-falando.html
Já havia visto, mas infelizmente só depois do final do curso…
Cara, você é um imbecil, mesmo. É o típico construtor de pontes, ignorante e sem capacidade de crítica e reflexão.
Hum…
Realmente, sempre tem quem acredite em merda e ache que os outros são tapados.
Som é “transmissão de ondas físicas (sonoras) através de um meio”. Pode crer, mas o ‘enigma’ proposto por ele não é antropocêntrico – você pode até pensar em biocêntrico, pois vários animais não-humanos também possuem ouvidos. O ouvido animal (inclusive humano) é que transforma ‘ondas físicas’ em ’som’ – sem um ouvido por perto, ou qualquer sentido capaz de captar a transmissão de ondas físicas, elas são só ondas físicas, não há porque falar em som. Esse é o ‘paradoxo’
Hum…
Não seria, isso que você disse, análogo a dizer que o céu só é azul se algum detector de azul olhar para ele?
Ou que o mundo acaba no horizonte até que alguém o cruze (essa última foi forçada, foi mal)?
Preciso pensar mais sobre isso…
É bem possível sim que você não consiga ver aquilo que existe. Eu posso ver aquilo que existe e você não ou vice-versa.
Acontece que antes de tomarmos consciência de algumas informações, essas informações são processadas primeiramente pela nossa mente, só então são enviados para a nossa consciência. Se por algum motivo essas informações não forem enviadas para a nossa consciência, então para nossa consciência essas informações não existem. A nossa mente pode muito bem não enviar informações de imagens de um navio, isso pode acontecer, principalmente porque a nossa mente só envia para a nossa consciência aquilo que a nossa mente acredita ser real.
Ceticismo e inflexibilidade tambem no meu ponto de vista são imbecilidade. Com toda ciência de hoje, ceticismo é uma atitude muito normal, mas vamo nos lembrar, que a um tempo atras dizer que o sol era o centro do nosso sistema te mandava pra fogueira, e a muito menos tempo atras, teve um sujeito ae que disse que computadores nunca se tornariam pessoais. E besteira maior é a arrogancia, pois uma pessoa que se agarra firmemente a suas ideias é uma pessoa estagnada.
Rafael, concordo que inflexibilidade é imbecilidade e concordo também com quase tudo que você disse, mas ceticismo é uma ferramenta essencial para a vida, pois nos protege de muita informação potencialmente perigosa e poupa muito tempo que poderia ser perdido caminhando para o lado errado.
Ceticismo não é cabeça-durismo, que fique claro.
Sinto muito cara apedeuta, mais seu professor estava corretíssimo enquanto você confunde experiência perceptiva “som/barulho” com o fenômeno bruto que antecede a percepção, as ondas de energia acústicas que se propagam no ambiente.
Certamente é só mais um dos milhares de pobres coitados, que acham que vivem presenciam o mundo em sua “totalidade”, totalmente fidedigno com as percepções do corpo.
Não há nada de errado em afirmar que o que experimentamos como “som”, não pode existir sem nós, pois é somente quando um ser dotado de sistema nervoso, afim de interpretar aquele fenômeno mais geral, em sua forma “bruta”, que o som passa a existir. É pura representação do ser cognoscente, mediante o aparelho corporal.
Fora de nós não existe som, sob certo ponto de vista ainda assim incorreto (o que não adiantaria explicar os pormenores aqui), o que existia seriam propagação da ondas no ambiente.
Meu professor estaria certo se não tivesse o mínimo de conhecimento físico e fosse um completo idiota como você que acha que o mundo acaba no horizonte porque não dá para ver além daquilo.
Som existe independente da sua vontade egocêntrica. Se você não está vivenciando aquele em particular ele pode não existir para você, mas existe de todo jeito, assim como a China existe sem a sua experiência.
Você é só mais um no mundo e não faz a menor diferença, se acostume.
Aqui estava eu procurando algo de interessante para ler. Encontrei!
Amei,