Eu moro a três quilômetros do meu trabalho, seguindo o tráfego.
Saio de casa, espero todos os carros que passam pela minha rua pararem de passar, mas preciso de um pouco de coragem e poderes de divinação, pois nela, que é mão-dupla e suficiente apenas para dois carros lado a lado a usarem, carros de passeio, camionetas, caminhões e kombis dividem espaço em ambos os lados da via, não estacionando apenas bloqueando os portões dos edifícios, mas sem pudor algum em parar às faixas amarelas que se estendem por três metros de cada lado das entradas ou em usar a calçada imediatamente em frente aos portões.
Após conseguir finalmente ter os quatro pneus do carro sobre o calçamento da rua, preciso parar vinte metros à frente, no primeiro cruzamento, de uma pista igualmente apinhada com carros, mas agravada pela presença de um colégio cujos alunos maiores preenchem os meio-fios enquanto os pais dos menores fecham o resto da passagem estacionando em fila dupla. Isso me facilita um pouco.
Após dirigir por uma via asfaltada, que se assemelha bastante à estrutura atômica (composta majoritariamente por espaço vazio, ou mais especificamente, buracos), tomando muito cuidado com os carros que nela adentram sem muita preocupação com a ordem de preferência de tráfego, tenho que entrar à esquerda enquanto evito automóveis que avançam por esse lado, num entroncamento de 45° (como uma letra Y, com duas ruas virando uma num ângulo que impossibilita a visão para ambos os lados).
Em seguida, continuo por um caminho razoavelmente bem conservado, talvez pelo fato da velocidade máxima ser de 20km/h, imposta pela (oni) presença de carros, novamente estacionados em todos os espaços possíveis, inclusive no meio da passagem, em frente às várias clínicas de fisioterapia e geriatria ali situadas, para possibilitar a extração de pessoas com todo tipo de dificuldade de locomoção que se movem muito lentamente com a ajuda dos parentes, inexperientes em tal ação, e que dobram como motoristas dos veículos atravancando o fluxo.
Na saída dessa rua há um balão (girador, roda, gira-gira, tesourinha) que, apesar de tal item de engenharia de tráfego dar preferência universal para quem vem da direita, dá a dita preferência para os que estão vindo da esquerda, de uma avenida maior e mais rápida, o que causa bastante confusão e eventuais acidentes.
Depois da espera, vou em frente até um sinal (semáforo). Não gosto de sinais, não gosto de ser parado arbitrariamente em cruzamentos.
Às vezes não há carros vindo, outras vezes o tempo não permite que a fila ande pois a caixa ainda está bloqueada pelo volume de automóveis em horas de pico que se vêem obrigados a parar no meio da encruzilhada.
Continuando o caminho, desço a terceira ladeira, subo a quarta, faço um retorno e desço a ladeira que acabo de subir, corto três pistas de ônibus descendo a ladeira, viro à direita e paro à Rio Branco, uma avenida sem limite de velocidade para ônibus e táxis. Quando vejo uma brecha, aproveito a oportunidade e subo a quinta ladeira.
Espero em mais um semáforo e, finalmente, chego no trabalho.
Gasto quinze minutos.
Como a Rio Branco é mão-única, na volta eu preciso:
1 – entrar à esquerda na rua antes do sinal, que só tem poucos centímetros laterais a mais que a largura de um carro pequeno e muitos pedestres, entrar em outra rua um pouco mais estreita, cruzar a mesma Rio Branco sem velocidade máxima em um ponto mais baixo, descer em uma rua paralela até desembocar num sinal (o primeiro da viagem de ida) que sem dúvida estará cheio e lento, pois fica pouco antes de quatro colégios que liberam os alunos ao mesmo tempo, na mesma hora que eu meu expediente acaba (não posso dobrar no sinal e voltar pelo caminho que usei para ir, pois é tudo mão-única).
Passados o sinal e os colégios, entro numa via tranqüila e chego naquela primeira avenida do caminho contrário (a que tem o girador que funciona ao contrário da norma) que agora está algumas vezes mais movimentada que pela manhã e sigo por ela até pouco antes de mais um semáforo, que, dependendo do movimento, consigo evitar, e entro em outra via de calçamento péssimo e recentemente esburacado (agora não só por obra da Natureza como também por obra das companhias de água e energia), por onde devo subir e descer mais duas vezes até chegar em casa, me esquivando dos estacionados.
Ou
2 – seguir direto, pegar a próxima entrada à esquerda e continuar por aí, me distanciando mais da minha casa, como se estivesse indo para outro emprego, mais longe, negociar minha passagem beirando uma igreja que sempre tem missa e onde todos os fregueses vão até lá de carro e precisam estacionar ao seu redor, continuar em frente, enquanto me afasto cada vez da minha casa, passar por e parar em (graças a mais um sinal de trânsito) um lugar ermo e por cima de um viaduto que “liga o nada ao lugar nenhum” e que é conservado com essa frase sempre em mente (existe razão para recapear um trecho jamais utilizado?), começar a seguir, pela primeira vez no trajeto, para perto de onde moro, chegar em um entroncamento (diferente do primeiro) que além de ser no fundo de uma ladeira donde os carros vêm com tudo, conta com um sinal em seu ápice, que me obriga a esperar por ele a trinta graus do prumo gravitacional, dirigir mais uns quinhentos metros, chegando finalmente à minha rua (mas pelo outro lado, tendo que enfrentar ainda mais carros parados), por um caminho mais longe porém mais rápido por ter evitado os colégios.
Gasto 25 (cenário 1) ou 20 (cenário 2) minutos.
Se eu for a pé, a distância diminui para mil metros.
Saio do meu lar, pela calçada, indiferente aos que estão ou não, e onde quer que estejam, estacionados, sigo por uma praça alongada e plana por aproximadamente dez minutos, onde encontro não mais que outras pessoas, árvores, gatos, cachorros e pássaros, e, ao alcançar a primeira pista (e primeira ladeira) do caminho, sigo subindo na diagonal, sem me importar com a direção das mãos de tráfego, atravesso uma rua e uma avenida e chego ao meu local de serviço.
Na volta, faço o mesmíssimo caminho, em sentido contrário.
Gasto quinze minutos.
na maioria do caso,a culpa é dos instrutores que não ensinam como deveria ou talvez não saibam ensinar!
Hein?