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1 Maio, 2008

Da Estrutura Óssea

Arquivado em: Natal, Vida — Etiquetas HTML:, , , , , , , , , , , — Igor Santos @ 5:02 am

Eu não entendo esse paradoxo feminino da obsessão com o formato do próprio corpo e do uso de acessórios imensos, que se não cobrem, desviam a atenção da escultura corpórea.
Brincos que quebram o contorno da lateral do maxilar e cobrem a parte mais cheirável do pescoço, óculos que parecem inspirados nos das passarelas das construções de prédios de estrutura metálica (com vigas e rebites, aqueles dos desenhos do Pica-Pau) que envolvem algum tipo de solda viva e que cobrem do meio da testa (onde dá-se um beijo e cheira-se o cabelo ao mesmo tempo) às maçãs do rosto (a área favorita do dedão de quem segura a cabrita pelo lado do cangote), relógios comparáveis a faces das edificações públicas (toda uma sorte de torres, prefeituras, igrejas, etc.) que nos informam das horas passantes (mesmo que com uma hora e meia de atraso médio; sempre lembrando que relógio que atrasa não adianta) e que incomodam na hora do vá-agora-não, quando a mão, por maior que seja, encontra dificuldades em abarcar o excesso diametral, bolsas titânicas que afetam o equilíbrio (o torque de uma dessas ao balançar é altíssimo), a saúde da espinha (quanto maior o receptáculo, maior a tentação de levar o desnecessariamente pesado) e o espaço entre-cadeiras (com três já se faz necessário o pedido de um assento extra e a conseqüente reorganização espacial dos que se sentam à mesa), além de serem um vórtice receptáculo de escovas (de dentes, de cabelo), caixas (dos óculos, que jamais saem do rosto, de tic-tacs, de pó), aparelhos eletrônicos (celulares, tocadores de mp3, de mp4, video-game portátil), fios (carregadores de celular, do video-game, dos tocadores, fones de ouvido, dental), chaves (de casa, do carro, da gaveta do trabalho), baganas (chicletes, chicletes sem açúcar, balas de hortelã, de mel, drops de morango, de melancia, chocolates), uma gama infinita de miudezas (dinheiro miúdo, graúdo, moedas, batons, esmaltes, tesourinhas, pente de sobrancelha, apertador de cílios, avolumador de cílios, rímel, blush, ruge, pasta de dentes, palitos de dentes, absorventes, perfumes, remédios para dores de cabeça, para dores de coluna, para indigestão, complexo vitamínico, livros, CD’s, papéis avulsos, canetas, cadernos, mertiolate) e uma carteira das grandes, cintos que aparentam mais imprescindíveis (corretores ortopédicos) que acessórios, cobrindo a parte do corpo compreendida entre o diafragma e metade do quádriceps femoral (talvez como auxílio à coluna sofrida pela peso da bolsa) e que não são tão macios e confortáveis quanto as cinturas das moças ali constritas e camadas sobre camadas de roupas.

Atualmente, a única parte exposta das senhoritas é o tampo do cocuruto (até que cheguem os chapéus, é lógico) e os calcanhares e tendões dos pés que, do alto de onde se encontram, sobre saltos impossivelmente elevados, se expõe freqüentemente a torções e rupturas, caso a frequência de oscilação do invólucro bolsal se torne incontrolável, a visão seja prejudicada pela máscara-de-soldador, fazendo com que as garotas pisem em buracos que, em outro caso, seria totalmente visíveis e evitáveis, os brincos pesando muito firam a cartilagem da orelha, causando um espasmo corpóreo que enfraqueça as pernas, ou os cinturões atrapalhem a fluidez de movimento, findando em topadas desnecessárias.

Meninas, nós queremos vê-las. Deixem a armadura em casa e saiam de camiseta, short e chinelo.

Para fins de comparação, eu ando com meu celular no bolso, onde coloco minha identidade, dinheiro e cartão do banco, sandálias que prendem no pé e que têm boa aderência, meu chaveiro com a chave da minha casa e um clipe de papel (muito útil em qualquer situação), e noite passada estava com um cadarço servindo para segurar minha bermuda (calça só de segunda a sexta, até às seis da tarde).

E, finalmente, como diria Ojuara: cheiro de mulher é melhor que mulher.

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