Eu cheguei do trabalho um dia e fui direto pra piscina do meu prédio, ver se o calor passava. Era lusco-fusco, puxando mais pro fusco, logo depois daquela hora onde tudo é azul e um pouco antes de tudo ficar cinza.
Quando eu levanto a cabeça de um mergulho, vejo um meninote (velho suficiente para andar rápido sem cair e para falar com estranhos mas não velho o suficiente para correr sem cair, formar sentenças sempre coerentes ou para aplacar a imensidão craniana que crianças pequenas ostentam) parado à borda da piscina e imediatamente fiquei de prontidão para socorrê-lo em caso de um mergulho acidental.
Ele apenas continuou parado lá, olhando para mim e perguntou, depois de um pedaço, porque eu estava ali dentro. Eu disse que era para me refrescar, apaziguar o mormaço (eu não sei conversar com crianças, aí uso palavras grandes e gírias de velho na tentativa encerrar o assunto por W.O.), ao que ele retrucou “não pode entrar na piscina essa hora”.
Como eu sou adulto, mantenho uma posição de privilégio no meu condomínio e conheço as regras, sei que é sim permito o uso da piscina em qualquer horário, desde não se faça muito barulho tarde da noite, mas às cinco e quarenta da tarde não há o menor problema.
E como meu interlocutor não tem mais que cinco anos, percebi que os pais dele disseram que era proibido e ele foi me avisar:
- Você não pode ficar aí agora.
- Posso sim.
- Por que?
- Porque eu sou um adulto.
- Mas pode não.
- Eu posso sim.
- Pode não.
- Posso sim.
- Pode não.
- Posso sim.
Esse foi o fim da conversa. A criança com idade pré-escolar, que nasceu quando eu já tinha cabelo branco e idade para ser formado, notou antes de mim que aquele diálogo era o mesmo que cavar buraco em água e não iria a lugar algum, deu as costas e foi embora com um merecido ar de superioridade.
Em outra ocasião, eu estava na casa dum primo meu, de molho na piscina, quando uma menininha (velha o suficiente pra andar com firmeza e conversar utilizando concordância verbal complexa mas não velha o suficiente para sair de casa sozinha. Eu não sei avaliar idades em anos…), prima dele mas não minha, veio charlar comigo:
- Oi.
- Olá!
- A água da piscina tá muito fria?
- Não, tá quente, chega eu tô suado.
- Quente não, morna! Se estivesse quente você se queimaria.
Instantaneamente eu gostei da garota. Sabida e rápida de raciocínio e sem medo de corrigir um adulto molhado.
Prontamente agradeci pela correção e disse que ela tinha razão, ela sorriu, testou a temperatura da água com a mão e saiu para fazer mais coisas de meninas daquela idade dentro de casa.
Depois de algumas horas, quando ela foi embora com a avó, a tia dela, esposa do meu tio, se despediu, fechou a porta atrás delas, deu dois passos para trás e disse “Ô MENINA CHATA!”, observação essa que foi corroborada por um amigo meu que estava na piscina comigo.
Quando eu perguntei porque ela estava sendo considerada chata, ele me disse “a menina fica só corrigindo o povo”. Justamente a característica que me fez gostar dela. Eu, então, disse que gostei da menina precisamente por isso e recebi um “Você sempre faz isso também, a menina é uma Igor pequena. Agora você já sabe o que o povo diz quando você vai embora…” em resposta.
Aêeeeeeeeeeeeeeeeeee!
êeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee
Êeeeeeeeeeeee! muit muito bom!=]
Aêeeeeeeeeeeeeeee!
êeeeeeeeeeeeeeeee
iê Iêeeeeeeeeeeeeeeeeeeee
menino é bicho infantil